por William Paolieri
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Nesse clima de carnaval é comum observarmos em festas, bailes e baladas o uso de drogas por parte dos jovens que frequentam esses lugares. Bebidas e drogas ilícitas acabam destruindo a vida de pessoas como eu e você aos poucos.
Quem não conhece algum caso de amigo, parente ou conhecido que morreu por um acidente automobilístico, onde provavelmente o motorista estava embriagado ou algum caso de um jovem que teve sua carreira destruída pelo consumo de drogas.
Como os pais devem agir? O que fazer se seu irmão usa drogas, como ajudá-lo a se livrar desse mal? Perguntas difíceis de serem respondidas, não é mesmo?
Pensando nisso resolvi indicar um livro para todos que se deparam com essa dúvida.
“Que droga é essa?”, da Editora 34 é um ótimo livro para quem quer aprender mais sobre esse tema. Depoimentos que mostram o drama de quem não consegue se livrar das drogas e também as vitórias e desabafos de quem já largou essa vida.
Abaixo segue um trecho do livro “Que droga é essa?”
“Fabiana, mãe de Bruno
Ela tem 48 anos e é professora aposentada.
“Não é que eu nunca percebi, é que é uma coisa tão difícil de admitir, que você faz de conta que não existe. É um atestado de que você não é boa mãe, pelo menos eu pensava assim: ‘Onde foi que eu falhei?Por que comigo’.
Nunca usei droga. Na minha adolescência nem sabia o que era. Ouvia falar, mas era uma coisa distante, usada por gente de classe mais baixa, que mora na periferia. Mesmo quando dava aula, ouvia falar de drogas, mas não conhecia.
De bebida, eu quero distância. Meu pai é alcoólatra e até hoje não admite. Quando ele bebe fica violento, briga, faz escândalos. Sou a filha mais velha, e sempre procurei ajudar minha mãe. Ao mesmo tempo, tenho pena e raiva do meu pai por ele fazer tudo isso, e eu não saber o que fazer. Peguei um tipo de aversão pelo álcool.
Imagine se meus pais falavam comigo sobre drogas, de jeito nenhum! Eu também não conversava com meus filhos sobre isso porque achava que era fora da nossa realidade. Depois eu via que realmente o problema existia, mas achava que dentro da minha casa não.
Comecei a desconfiar de alguns amigos do meu filho. Eles tinham comportamentos estranhos, maneiras de se portar, de se vestir e, é lógico, passei a desconfiar do Bruno também. Mas daí a ter certeza de que o problema existia, foi um bom tempo.
A primeira vez que meu marido foi chamado na delegacia, senti raiva do Bruno e, ao mesmo tempo, queria protegê-lo. Depois pensava: ‘Ah, deve ser o pessoal com quem ele está andando’. Arranjava uma série de desculpas e justificativas para o fato de ele estar usando drogas: ‘Ah vai ver que a polícia exagerou, não era tanto assim’. Ou então: ‘Ah, é essa fase de adolescência conturbada, ele deve estar só experimentando, mas isso vai passar’. Na verdade, nunca imaginei que a coisa fosse tomar o rumo que tomou.
Ele desaparecia durante dias, voltava num estado difícil de acreditar. Roubava coisas dentro de casa, as jóias que eu tinha foram todas. Outras vezes ele se envolveu com polícia. Sumiu. Só fomos saber dele no Pronto Socorro com o nariz quebrado.
Foi muito difícil. Eu me sentia culpada e ficava amarrada. Não sabia o que fazer, que atitude tomar. Procuramos ajuda: psicólogo, aconselhamento, uma série de coisas que não deram em nada. Só quando fomos para o Amor Exigente e o Narcóticos Anônimos passamos a ver como o nosso comportamento era facilitador. Percebemos que também éramos pessoas doentes, complicadas e que não podíamos resolver tudo.
Começamos a colocar limites: o Bruno perdeu a chave de casa, estabelecemos horários para ele voltar. Algumas vezes ele respeitou, a maioria não. Então ele dormia fora de casa, no capacho, na escadaria, na sala de recepção do prédio, porque não abríamos a porta. Era muito difícil, eu não dormia, ficava com o coração na mão. Aquelas noites de frio! ‘Meu Deus, onde ele está? O que estará fazendo?’
Mas eu tinha certeza de que se não agisse assim, nada iria mudar. Nós não tínhamos mais vida. Era tudo em função dele e nunca sabíamos onde ele estava, quanto tempo ia ficar fora, se ia voltar, como ia voltar. Hoje eu falo com certa tranqüilidade porque já passei por isso, mas no momento é tudo muito difícil.
Nesses cinco anos, eu trabalhei meus ressentimentos. Não tenho mais aquela mágoa, aquela raiva que me acompanhava por tudo que meu filho fazia, mas por outro lado, eu não posso esquecer, porque se eu esquecer, vou ser fisgada pelo bichinho do ‘Já estou bom’ e, na verdade, a gente nunca está totalmente bom, tem sempre que continuar trabalhando.
Tivemos vários casos de filhos de amigos nossos que morreram de overdose. Meu marido esteve domingo agora no enterro de um deles. Esse morreu assassinado. Então é uma escolha deles.
Hoje eu entendo que foi uma escolha do meu filho, como é a escolha de qualquer pessoa, continuar ou não nessa vida. Mas, freqüentando esses dois grupos, fico mais tranqüila porque eu estou fazendo a minha parte. A parte dele só ele pode fazer, eu não posso fazer por ele”.
“Que Droga É Essa?”
Autores: Aidan Macfarlane, Magnus Macfarlane e Philip Robson
Editora: Editora 34
Páginas: 200
Onde comprar: nas principais livrarias
Boa Leitura.