ASCENÇÃO À FRANCESA1
Escrito por Henrique Torres | Postado em BGC Especial - Copa do Mundo 2010 | Tags: BGC Especial, Copa do Mundo 2010, França, futebol e cultura, Henrique Torres, Tradições, Zidane
Após o título mundial de 1998, o futebol ganhou projeção nunca antes visto na França. Porém, a fraca campanha nesta Copa pode fazer com que a confiança no time caia
por Henrique Torres
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Para os brasileiros amantes de futebol, nós temos dois dias “D” numa semana: o domingo e a quarta-feira. Segunda e quinta são dias de contar os mortos e feridos, ou cantar a vitória de mais uma batalha. Domingo e quarta são dias de extravasar na frente de uma televisão, arrancar os cabelos, roer as unhas e perder a voz com o seu time, não importa se para falar mal ou apoiar. Segunda e quinta são dias de andar orgulhosamente com a camisa de seu time na rua, “tirar uma” com o seu amigo de escola, ou seu colega de trabalho que não tem a mesma sorte de ter um time vencedor como o seu. Contudo, segunda e quinta podem ser dias de tristeza, dias de amargura, dias de não querer ver ninguém que goste de futebol para não ter que ouvir falar da vergonha que seu time passou no dia anterior.
Essa é uma imagem bem geral do cotidiano daqueles que são apaixonados por futebol no Brasil, ou que ao menos torcem por algum time. Trago esta imagem do Brasil, no entanto, para falar da França. Ou melhor, dizendo, para falar de como se vê o futebol na França, e, por conseguinte, de como os franceses encaram a Copa do Mundo. Em alguns aspectos os franceses lembram os brasileiros, é claro que guardadas as devidas proporções. A grande verdade é que no fundo o futebol e a Copa do Mundo ainda são vistos com certa apatia na França. O que não significa que a popularidade do esporte não tenha crescido nestes últimos anos. A França é outra desde 1998.
1998 foi o ano em que a França parou. Ela se encheu de um fervor ardente por futebol. Um clima de expectativa total antes da Copa, e um êxtase maior ainda após a vitória épica sobre o que era considerada a melhor seleção do mundo. Este foi um marco. Em 1998 aconteceu na França o que acontece em todos os anos de Copa do Mundo no Brasil; uma nação inteira estagnada diante de uma televisão. Esta Copa do Mundo na França fez com que surgisse não só uma outra potência do futebol, mas fez também com que surgisse um potencial de crescimento para o futebol na França.
É claro que eles ainda estão muito longe de nós. A não ser em 1998, os franceses nunca deixaram o dia-a-dia de lado para assistir os jogos da Copa. Mesmo os da seleção francesa. Os franceses não têm os dias de aula ou de trabalho cancelados para ver a seleção. Tal pratica seria até desperdício na França. A maioria dos que recebessem tal “privilégio” certamente não o aproveitaria para assistir a Copa.
A verdade é que o futebol na França tem crescido, mas ainda não chegou a ultrapassar outros esportes de menor expressão no Brasil. Temos como esportes tão populares quanto o futebol, o tênis e o tradicionalíssimo torneio de Roland Garros, e a Fórmula 1 do mito Alain Prost, além do fato da França ter uma equipe que a representa, a Renault. Correm por fora a natação e o futebol americano, que são junto ao tênis, os esportes tradicionalmente praticados nas escolas, nos parques e onde quer que seja possível. Não que seja impossível jogar futebol na França. Mas não é tão fácil quanto jogar futebol no Brasil ou basquete nos Estados Unidos.
Mesmo assim pode-se ver que o prestígio do futebol vem crescendo na França, graças a Copa de 1998, por analisarmos alguns aspectos tipicamente brasileiros. Existem em Paris vários bares que exibem os jogos da Copa como quase todos os bares brasileiros, alguns malucos que assistem a todos os jogos da Copa, ao menos um canal de TV interessado em transmitir todos os jogos, alguns jornais que se não dão tanta importância ao futebol quanto os jornais brasileiros ao menos dão alguma. Com isso, mesmo que o futebol ainda não seja uma grande paixão na França, ele certamente está na boca do povo. E você constatará isso se vier um dia a encontrar um francês que entenda o mínimo de futebol. Ele provavelmente te lembrará que Les Bleus nos bateram duas vezes, isto é, levaram o título de 1998 nas nossas costas, e que nos deixaram no caminho em 2006. Infelizmente. Ou felizmente.















A França cresceu muito no futebol nas últimas décadas, desde Platini e entrou para o time dos grandes definitivamente com Zidane. Mesmo assim, acredito que a pífia campanha desta Copa vai fazer com que o torcedor cobre mais sua seleção e fique menos interessado em futebol. Abraço.