por Leandro Pereira
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Confira abaixo entrevista com o artista plástico mineiro, Domingos Mazzilli.

- O artista plástico Domingos Mazzilli – Crédito: Leandro Pereira
Leandro Pereira: Mazzilli é um prazer tê-lo conosco! Você é considerado uma das maiores revelações das artes plásticas em Minas nos últimos anos e atualmente se dedica em tempo integral ao teu processo criativo, depois de abandonar a psiquiatria. Como está sendo para você este período de transição?
Domingos Mazzilli: Está sendo muito rico porque aos 43 anos eu me descobri artista, e hoje me vejo com uma produção extensa e de qualidade, fazendo algo que jamais imaginaria fazer na minha vida e de forma profissional. Foram 20 exposições em dois anos e quatro meses. Construí uma obra que perpassa pelo bordado, assemblage, instalações, suportes variados. Isto tudo com um fio condutor, uma marca fortemente autoral e sem fazer maiores concessões. Neste período expus dentro do circuito consagrado da arte como Palácio das Artes, Sesc Pompéia em São Paulo, Chapel Art, Casa dos Contos em Ouro Preto e ao mesmo tempo em lugares alternativos como o Hospital Psiquiátrico Raul Soares, Galpão Abandonado, Casa da Xiclet em São Paulo. Agora exponho no Casarão do Museu Abílio Barreto, que pela primeira vez recebe arte contemporânea e sofre intervenção na sua parede tombada pelo patrimônio. Eu estou muito feliz com esta nova vida de descobertas e sinto o maior orgulho da minha produção e determinação.
LP: O que significa Bacio e Alcova?
DM: Bacio é uma palavra pouco usada no idioma português que significa penico, urinol. Também se refere à pronúncia de vazio em espanhol e faz uma referência à bacia, objeto doméstico de metal utilizado para banho e também na cozinha. Diz respeito ao meu trabalho que se estrutura em torno do vazio, da intimidade, do lugar onde se lava a roupa suja. Alcova é um cômodo das casas antigas sem portas e janelas, sem abertura para o exterior, destinado às mulheres solteiras, aos doentes e à devoção.

- A exposição de Mazzilli está em cartaz no Museu Histórico Abílio Barreto- Crédito: Leandro Pereira
LP: A Exposição-Instalação Bacio|Alcova que é teu mais recente trabalho integra o evento “Nos Porões da Razão em Nome da Loucura” dos 30 anos da REFORMA PSIQUIATRICA BRASILEIRA. CAPÍTULO MINEIRO no Casarão do MUSEU HISTÓRICO ABÍLIO BARRETO (MHAB) com a curadoria de Augusto Nunes Filho. Um traço marcante do teu recente trabalho é a relação intimidade/publicidade caracterizado pela exibição de elementos pessoais do feminino como calcinhas, soutiens, espartilhos bordados como metáforas desconcertantes que retratam de forma singular o universo da mulher. Lingeries na alcova e bacias no pátio: qual foi o ponto de partida para esta criação e como o público feminino tem reagido?
DM: O conceito que permeou este diálogo do meu trabalho com a exposição dos 30 anos da reforma psiquiátrica no Brasil, que começou aqui em Minas, foi a partir da camisa de força e do quarto do louco com o espartilho e a alcova da mulher. Ela retrata a exclusão do louco e da mulher na nossa sociedade que, mesmo sofrendo mudanças, ainda continua pelos grandes sertões afora, por determinadas culturas aqui e no resto do mundo. Do feminino da alcova fizemos um contraponto com as bacias no pátio que repetem o corte e dobra do trabalho de Amílcar de Castro enquanto revelam a passagem do privado para o público. É uma exposição que trata de questões bem universais como o preconceito, a intolerância e a liberdade no sentido mais amplo. Espero que as mulheres se reconheçam ali, ao denunciar o que historicamente foi feito com elas. E que também reflitam sobre o aprisionamento estético a que se submetem em nome da beleza, que é a nova camisa de força do mundo contemporâneo: botox, lipos, cirurgias plásticas, etc.
LP: Como você define a loucura e o que os loucos e as mulheres têm em comum?
DM: Loucura é falta de razão como é conhecida por nós. Na verdade o louco, agora chamado de portador de sofrimento mental, termo politicamente correto, possui uma outra lógica, um outro funcionamento psíquico. O que há em comum entre a loucura e o feminino é que ambos estão sujeitos a desregramentos, à transgressão, à subversão, escapam do cerceamento, do enquadramento, da lógica vigente. E isto é maravilhoso, pois obriga a sociedade, o mundo, a repensar seus valores e a si próprio. Veja por exemplo um filme do Almodóvar ou de Fellini, onde o feminino e a loucura, a desrazão, se fazem presentes.

- Um dos destaques da mostra – Crédito: Leandro Pereira
LP: Quando e como surgiu este fascínio pelo universo da mulher e suas complexidades?
DM: Da minha vida. As mulheres sempre foram muito mais interessantes que os homens. Tem semitons, são desdobráveis. Apontam para o desejo de uma forma sinuosa, enviesada.
LP: Algumas das tuas peças causam forte impacto sobre a emoção das pessoas fazendo com que homens e mulheres saiam das galerias tocados e muitas vezes em choque ao simples contato visual de algum objeto. Você tem noção do poder que tua arte exerce sobre o público?
DM: Tenho o relato de monitores sobre pessoas que sentiram-se mal em exposições, tiveram crise de choro, descontrole emocional. Já pude também observar isto dentro de sala de aula quando levava os meus trabalhos. Eu trabalho muito com o estranho familiar, com a estética do inconsciente, com o tempo e a memória. E também gosto da teatralidade na hora da apresentação do objeto. Então uma exposição minha de certa forma obriga a pessoa a se entregar ao material exposto, ainda que ela não queira. Ela é fisgada por algo que não sabe bem nomear e que é da ordem do inconsciente, ou por lembranças várias que a obrigam a se deparar com determinados conteúdos subjetivos. Como diria Clarice, ela pescou a entrelinha. Alguns artistas fazem isto de forma muito contundente com o público como Louise Bourgeois, Farnese de Andrade, Joseph Cornell. Lembram o que a humanidade gostaria de esquecer.

Outros objetos na exposição de Mazzilli - Crédito: Leandro Pereira
LP: As artes plásticas no Brasil atual são tidas como uma arte elitista, no sentido de que a maior parte da população não tem suporte intelectual para compreender sua natureza sutil e complexa e, no entanto, seus trabalhos são apreciados por um público diverso proveniente de todas as classes sociais. O que você acha que está mudando na cabeça das pessoas?
DM: Eu não tenho a pretensão de mudar algo nas pessoas e se é esta a função do artista. Mas procuro com o meu trabalho tocar o ser naquele que ele tem de mais íntimo e, por isso, universal. Se o outro vai mudar, melhor. E como lido com objetos familiares, do cotidiano, todos, mesmo as pessoas de menor formação intelectual, sempre tem algo a dizer sobre o que vê, seja uma calçola, um penico, um faqueiro ou uma bala. Meu trabalho não é excludente, embora tenha ali embutido nele, muitas vezes um conceito sofisticadíssimo que dialoga perfeitamente com a sociologia, a psicanálise, a filosofia, a semiótica e por aí vai. E é nesta hora que percebo a força dele, quando a faxineira pára para observar, o pedreiro, o pintor de paredes, nas vésperas do vernissage.
LP: Só o prazer nos salva da loucura (Hélio Pelegrino). Como você define a loucura e de que modo o prazer estético que a arte proporciona pode libertas as pessoas de seus males psíquicos?
DM: Eu penso que nada, nem a arte, traz salvação. Se o prazer trouxesse a redenção, as pessoas liberadas sexualmente, dadas a gula e outras transgressões capitais seriam mais felizes, o que não corresponde ao que se vê por aí. Muitas vezes o prazer vem associado à morte, ao que chamamos de gozo, à repetição, à compulsão. E também há o prazer em não ter prazer. As coisas não são tão simples assim. Não acho que a arte liberta ninguém de nada. Pode no máximo dar vazão a expressão do artista e esvaziá-lo por certo tempo.

- A mostra de Mazzilli estará em cartaz até 21 de fevereiro – Crédito: Leandro Pereira
LP: Existe algum, dentre teus muitos trabalhos, que você gosta mais?
DM: Sim. “O que me Completa”, Lar, Doce Lar”, “Regras e Balas” são trabalhos muito fortes conceitualmente e que o público gosta muito e eu também.
LP: Fontes disseram ao nosso blog que você pretende um dia abordar a temática do universo masculino? Você confirma essa informação?
DM: Sim. Ainda quero fazer uma série em que me refira ao universo masculino, assim como penso também numa série sobre o universo pop, da sociedade de consumo. Mas não sei quando ainda. No meu próximo trabalho, depois desta série de bacias, devo voltar a bidimensionalidade onde retomo o tecido, bordando bandeiras que são pontas de peças com marca de origem do fabricante, característica do tecido, como ex: puro linho irlandês, 100 % algodão etc.
LP: Domingos Mazzilli, o Blog da Comunicação agradece o tempo dedicado a esta entrevista. Nós te desejamos um 2010 de saúde e muito sucesso!
DM: Obrigado pela atenção e um feliz 2010 para todos vocês e seus leitores.
INFORMAÇÃO
Nos Porões da Razão em Nome da Loucura
De: 28 de novembro de 2009 a 21 de feveriro de 2010.
Horário: de terça a domingo, de 10h às 17h e quinta de 10h às 21h.
Local: Museu Histórico Abílio Barreto, Av. Prudente de Morais, 202, Cidade Jardim, Belo Horizonte (MG).
ROUPA SUJA SE LAVA EM CASARÃO HISTÓRICO
“A exposição nos porões da razão em nome da loucura, com curadoria de Augusto Nunes-Filho, traz a instalação bacio e a exposição alcova do artista plástico Mazzilli. Ela comemora os 30 anos da Reforma Psiquiátrica Brasileira: Capítulo Mineiro, que se deu em Belo Horizonte em 1979″.