ago 2011 22

Por Renata de Tullio Monteiro

tecnologia@blogdacomunicacao.com.br

Enquanto milhões de pessoas trabalham e investem honestamente o seu dinheiro em pequenos luxos, como um DVD original de seu artista preferido, outros milhões vivem e sobrevivem da falsificação desses mesmos produtos.

De um lado, o lucro impiedoso da indústria fonográfica, que certamente poderia cobrar preços mais justos e democráticos. De outro, a poderosa máfia da falsificação e pirataria, cujos ganhos são igualmente suntuosos, mas trazem de arrasto famílias inteiras que se submetem a condições de trabalho subumanas, em troca de um salário de subsistência.

O nosso sistema capitalista é um dos grandes responsáveis pela convivência mútua dessas realidades, pois dá espaço para que os dois tipos de negócio tenham pleno êxito na sociedade. Assim como o contrabando e o tráfico de drogas, penso que a pirataria é um crime porque, por trás de suas cortinas falsificadas, existe um universo de pessoas prejudicadas. Ora pela desvalorização do trabalho digno de artistas, ora pela exploração indevida de trabalhadores que, por falta de melhores opções, acabam por colaborar com o crescimento indômito desse mercado negro.

Pirataria: de quem é a culpa? Crédito: divulgação

Cerceados por uma cultura de alto custo, os consumidores ficam com opiniões divididas sobre o assunto e, na verdade, dançam conforme a música. Se lhes sobra algum dinheiro no bolso ou a consciência fala mais alto, não hesitam em comprar CDs e DVDs originais. Caso contrário, contentam-se em recorrer ao comércio pirata mais próximo de suas casas. Mas nem por isso devem ser considerados os culpados.

Embora ainda seja alvo de polêmicas, penso que a Internet pode ser um bálsamo para esse cenário. O ambiente democrático da web abre portas para que artistas revelem seus talentos e ganhem dinheiro com isso, beneficiando diretamente o público, que tem acesso livre à música e à cultura, sem precisar gastar muito dinheiro, nem colaborar com o injusto crescimento da pirataria.

ago 2011 12

Por Renata de Tullio Monteiro

entretenimento@blogdacomunicacao.com.br

Em 1945, na peça “Entre Quatro Paredes”, o filósofo existencialista francês Jean Paul-Sartre perpetuou uma de suas mais famosas frases, que até hoje retumba de maneira perturbadora: “O inferno são os outros”.   Não me arrisco a interpretá-la, mas penso que é exatamente disso que trata o filme argentino “O Homem ao Lado” (2009), de Mariano Cohn e Gastón Duprat.

A trama é minimalista e, no primeiro momento, pouco interessante. Leonardo, um designer renomado e encerrado no seu mundo de trabalho e sucesso, vive com a esposa e filha em uma moderna residência, desenhada pelo arquiteto suíço Le Corbusier.  Marteladas provindas de uma reforma na casa ao lado dão início ao drama intrigante e bem humorado, que gira em torno de um rombo que o vizinho Vítor – um sujeito meio brutamontes – fez na parede de sua casa, com vista para a sala de Leonardo.

Como o morador da mansão mais conceituada e popular da cidade de La Plata, em Buenos Aires, poderia ficar tão incomodado com a sua exposição ao novo vizinho, de personalidade rústica e um tanto vulgar? Para Leonardo, o buraco na parede foi também um orifício em sua vida.  Ao longo do filme, fica claro que o incômodo não provém da perda de privacidade exatamente, mas da exposição de uma personalidade frágil e insegura, geralmente travestida de bem-estar, fama e bom gosto.  O que sustentava seu sofrimento era o fato de que suas futilidades, inseguranças e seu modo convencional de levar a vida estavam ali: entregues e vulneráveis.

Com filmagens que parecem um tanto amadoras, dando a sensação de proximidade entre o espectador e as personagens, o filme transcorre entre discussões, pensamentos e introspecções provocadas pelo buraco na parede. Mas o desfecho da trama tem um efeito perturbador: são longos minutos de silêncio e vazio, com uma cena paralisada, que hipnotiza.

Não há nada de inovador no filme, nem atuações excepcionais, nem profundos jogos de psicologia. Há apenas uma identificação súbita do público com uma briga de vizinhos, além um final incômodo e taciturno.  Daqueles que demoram a sair da cabeça e fazem a gente ir embora do cinema discutindo, querendo contar e recomendar para todo mundo.

Clique aqui para assistir ao trailer do filme no YouTube.

Cartaz do premiado filme argentino "O Homem ao Lado".

ago 2011 05

Por Renata de Tullio Monteiro

entretenimento@blogdacomunicacao.com.br

Um dos destinos mais charmosos e cheios de glamour da América do Sul, Punta del Este, no Uruguay, me mostrou nesse inverno o seu lado silencioso e nostálgico.

À espera de dias mais quentes, a cidade assiste o impiedoso frio uruguaio com resignação.  Os poucos visitantes, em sua maioria brasileiros e argentinos, que gostam do deserto puntaesteño desfrutam da despovoada cidade, que parece ter uma aura de lembrança do último verão.

A sensação é de que há uma memória coletiva no ar: das músicas altas nos carros importados, dos artistas famosos desfilando na região de José Ignácio, das roupas de marca, das mansões esbanjando festas, da cidade acontecendo. Mas, basta esfregar os olhos para voltar à realidade e perceber que continuamos na deserta Punta, cujo frio é seco e ensolarado, à noite os semáforos são desligados, o único shopping carece de consumidores e as janelas das casas e edifícios mais luxuosos estão fechadas.

É interessante assistir esse lado saudoso de uma cidade tão Top. O profundo silêncio que grita em Punta durante os meses mais frios faz a gente olhar para dentro de nós mesmos. Almejamos tanto o que há de mais luxuoso, movimentado e, de repente, nos vemos entregues aos momentos de vazio e inércia, que justamente nos revelam nossas peculiaridades, belezas escondidas.

Em minha opinião, Punta del Este é esplêndida no inverno e recomendo a visita. Porque, vazia, permite ser admirada em sua totalidade, em sua essência. Um lugar pouco turístico que merece ser conhecido nessa época do ano é a região campestre. Há vinhedos que compõem paisagens incríveis, além de restaurantes rústicos, de pedra e lareira, que servem saborosos pratos.

Tive a oportunidade de visitar um clube de chácaras chamado PuebloMio, onde geralmente se “escondem” os milionários mais discretos. Além desse passeio alternativo, tudo o que é cartão-postal também precisa ser visto: La Barra, José Ignácio (vale comer no restaurante mais “in” de lá: La Huella), a península, a praia brava e a mansa, entre outros pontos turísticos.

Quanto à gastronomia, os peixes e frutos do mar dominam a região e são deliciosos.  Junto com um vinho uruguaio, eles temperam com muito mais charme o inverno puntaesteño.

La Mano: o cartão-postal de Punta del Este, a espera de turistas. Crédito: Divulgação
jun 2009 03

por Renata Monteiro
especial@blogdacomunicacao.com.br

A televisão e, em específico, os telejornais, possuem um papel de destaque no comportamento da população brasileira, no que diz respeito à informação e como ela é absorvida. Basta prestar atenção em nossos próprios diálogos, quando se fala de temas que estão em evidência. A televisão é sempre lembrada. Sem dúvida, a Internet também ocupa um espaço importante, no entanto, percebe-se que os telejornais trazem mais credibilidade, por invadirem as nossas casas há mais tempo (recordando: o primeiro telejornal brasileiro – “Imagens do Dia”, foi ao ar no dia 19 de dezembro de 1950, com texto e reportagem de Rui Rezende, transmitido pela TV Tupi). Desde o início, os eles passaram por visíveis evoluções em todos os campos: reportagens e matérias, a forma de abordagem, os repórteres, a seriedade e o compromisso com o telespectador.

Para descrever esta evolução no comportamento do telejornalismo brasileiro, decidi reduzi-la a uma editoria: a policial. Segundo dados do Mapa Brasileiro de Violência nos municípios de 2008, lançado pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), desde 1996 até o ano passado, foram assassinados 500.762 brasileiros. Com este número, faz sentido a presença de um grande número de notícias sobre violência e segurança na televisão brasileira.

Durante muitos anos, pudemos conferir programas altamente sensacionalistas (como o “Aqui Agora”, do SBT, e o “Cidade Alerta”, da TV Record), que combinavam jornalismo e histeria, todos com a única intenção de ganhar elevados índices de audiência, esquecendo-se que a informação deveria atuar como intermédio entre os cidadãos e os governantes, agindo em prol da melhoria na qualidade da segurança pública nacional.

Atualmente, ainda existem programas de cunho sensacionalista, que atrasam o progresso da divulgação de informações através da TV e, por conseqüência, fazem regredir toda uma sociedade que ainda depende e se alia tanto ao que vê pela telinha. Vamos exemplificar esta realidade:

Em Curitiba, um brutal assassinato de uma criança de nove anos teve repercussão nacional, em novembro do ano passado. O corpo da vítima, Rachel Maria Lobo Oliveira, foi encontrado com sinais de estrangulamento e abuso sexual, dentro de uma mala, na rodoviária da cidade. Vejam a reportagem exibida pela Rede Record em 05/11/2008:

Imagem de Amostra do You Tube

Pode-se notar, nesta reportagem, que os fatos são ditos com seriedade e precisão. Imagens do local, dos policiais são cobertas com um off sério, sem parcialidade nem ofensas. Ou seja: o fato relatado como ele é.

Mas nem tudo é assim no telejornalismo brasileiro. Vejam este vídeo que relata a mesma notícia, porém, deixa a seriedade de lado e parte para imagens apelativas:

Imagem de Amostra do You Tube

Reportagens como esta, acima, fazem refletir: parece que ainda estamos engatinhando e precisamos dar um salto de qualidade na cobertura destas matérias. O telejornalismo policial brasileiro ainda tem dificuldade em seguir uma regrinha básica: menos sangue, mais informação. Só com notícias objetivas e responsáveis se pode contribuir para uma sociedade mais crítica e menos acostumada a ver tragédias brutais na televisão, como se fossem somente ficções cinematográficas.