jan 2011 11

por Serg Smigg
comportamento@blogdacomunicacao.com.br

Fiéis das mais diversas vertentes religiosas, e diversas é o termo mais aproximado do eufemismo – e da ironia também – para destacar a quantidade absurda de novas denominações que surgem dia a dia, representam uma grande força nesta que é chamada a civilização da tecnologia. Uma força aqui vista sob duas óticas distintas, mas interligadas. Sabe-se que lamentavelmente o instinto individualista do animal homem ainda é encontrado na herança genética, vinda dos tempos em que o uso da força bruta era parâmetro para a questão da sobrevivência.

Por séculos após o cérebro mentecapto de milênios atrás ter percebido necessidade de viver em clãs, a natureza, com suas intempéries e situações de risco a todo instante, forjou a concepção da autodefesa fundamentada nas energias musculares do corpo humano. A convivência gerou ainda a noção de sentimentos associados ao bem-estar emocional: aconchego, proteção, familiaridade etc. E espírito de liderança. Assim, quanto mais forte o líder, maior o alcance da percepção social de seus atributos.

O cérebro aprende com exemplos encontrados no mundo exterior a si. Os muitos séculos nos primórdios da humanidade vividos sob impressão de que líder é superior criaram também a noção de individualismo, pois todos passaram a buscar ser líder. Posteriormente, de forma lenta e silenciosa, esse instinto foi se tatuando na personalidade do homem, geração após geração. Hoje, o homem ainda é tão dependente de líderes, de heróis, de exemplos que nem sequer se dá ao trabalho de usufruir de seu senso crítico para avaliar comportamentos. Basta que ouça eu sei ou eu faço para se entregar idealmente como uma criança despreparada.

Todo comportamento social tem prazo de validade. Isso é notório. Após milênios de dependência por parte dos clãs em relação aos que mais se destacavam, o cérebro voltou seus fundamentos percepcionais a deuses. Passou-se então da admiração físico-postural a oferendas. Nas sociedades anteriores à Era Cristã, ofertavam-se animais a deuses mitológicos. (Ainda hoje esse comportamento é observado em sociedades extremamente atrasadas.) Com o fortalecimento dos conceitos vanguardistas do homem Cristo – mas jamais assimilados a contento -, exauriu-se a ideia de oferendas, argutamente substituída pela ideia de dízimo.

E então chega-se à civilização atual.

Oferta-se financeiramente hoje muito mais que conceitualmente antes. No lugar do bem-estar emocional diante do forte homem das cavernas e da oferenda de sangue animal ou humano nos altares gregos, romanos, mesopotâmicos etc., hoje os cofres religiosos com senhas numéricas e aplicativos de tecnologia da informação são o instrumento de elo entre as necessidades psicológicas humanas e a ilusão de vê-las supridas. Faz-se isso hoje com tal leviandade que se veem exaltados seres tão normais quanto qualquer um dos mais normais do mortais, mas vendidos a peso de ouro. O ouro da dignidade social. (Desta forma, chora-se por jacksons, endeusam-se madonas, extasia-se por winehouses com tanta futilidade quanto fúteis são suas pretensas obras.)

Poucos e rápidos cálculos poderiam demonstrar claramente as duas arestas da força da fé, mas calcular infere raciocinar e parece que ambos os verbos representam tarefa por demais distante do universo dos que se entregam cegamente ao hábito da orgia religiosa.

A primeira aresta é conceitual. Considerando as muitas décadas de ação das vertentes protestantes – e tal ação por si vem num crescendo de progressão geométrica – (sem ainda se pensar no Catolicismo, que reinou absoluto por séculos seguidos), é surpreendente observar a safardes ética da sociedade mundial. O fluxo de proliferação das igrejas pentecostais no mundo todo – veja-se aqui um aparte para o lado cômico dessa proliferação: adoradores de Maradona, Bola de Neve, Associação Evangélica Fiel Até Debaixo D’água, Florzinha de Deus etc. (clique e veja mais) -, inclusive e especialmente na classe política, não permitiria haver tanta corrupção, tanta desconsideração para com o próximo, tanto desdém em relação à fome mundial, tanto distanciamento entre líderes e liderados. Ou seja, a quantidade de igreja e de seus fiéis já deveria ter feito com que a palavra de deus surtisse o efeito proclamado, pelo menos na maioria dos homens. Desde Lutero, a quantidade de igrejas inventadas no mundo necessariamente haveria de ser superior à força das imperfeições dos homens. Haveria de ser se houvesse o mínimo de idealismo na classe liderante.

A segunda aresta é financeira. Pensando-se em termos mundiais e considerando-se o fluxo financeiro na igreja católica em todos os séculos, considerando os bens materiais à disposição dessa instituição; considerando ainda o movimento de dinheiro em todos os templos neopentecostais; somando-se ainda tudo isso a aportes financeiros governamentais destinados a ONGs, instituições e programas sociais, somente um completo alienado não se perguntaria: ainda existe fome no mundo? Ainda existem corrupção, desmandos, melindres e falta de ética?

Esse estado da consciência atual da comunidade religiosa mundial talvez seja o que mais íntima e seriamente lembre um dos conceitos mais fortes do homem mais exaltado pelos líderes de hoje em suas palestras teatralizadas, sessões pré-concebidas e cultos esclarecedores. Disse aquele homem há dois mil anos sois cegos guiando cegos ao se referir ao relacionamento entre os autoinvestidos da ordem divina e seus fiéis. Coincidente, previsível e adequadamente, esta passagem bíblica é envolta por contumaz esquecimento nos encontros e discussões.

Dirão os embevecidos fiéis e espertos líderes: não se consegue melhorar o nível ético da humanidade porque o diabo está entre os homens. E alguns deles certamente irão mais longe: este próprio texto é inspirado pelo inimigo de deus, pois está execrando o ato de fé representado pela oferta do dízimo, quando todos sabemos que o dízimo foi instituído por Deus. E a estes os enceguecidos louvarão com hosanas, esquecendo-se de que, quando deus fez o mundo, não fez o dinheiro; que, quando a ideia de dízimo foi incorporada ao comportamento social humano, o inconsciente coletivo previa que fraternalmente se dispusesse de certa parcela do tempo de vida a deus e à comunidade, com atos de companheirismo, cordialidade e amizade.

Os muitos anúncios descarados de compra de helicópteros, fazendas, empresas por parte de líderes religiosos, de investimentos faraônicos em minisséries (Esther, Sansão e Dalila etc.) televisivas ou cinema e em companhias marítimas, acordos milionários com famílias vítimas de pedofilia etc. mostram os caminhos fáceis percorridos pelos dízimos; a hediondez humana prevista e vista no comportamento de líderes religiosos, a pequenez de postura no relacionamento humano mundial que deveria ser corrigida por esporádicas ações sociais e religiosas, a desfaçatez de princípios sentida na manipulação da fome no mundo etc. mostram os caminhos tortuosos percorridos pelos ideais.

Fortaleceu-se então o dízimo financeiro e fez-se recrudescer a força do ideal dizimista da fraternidade.

Há algo de podre no reino religioso.

dez 2010 07

por Serg Smigg
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“Imagina-se uma montanha do tamanho de um prédio de quinhentos andares; imagina-se que um pássaro afie seu bico nessa montanha a cada quinhentos anos. Quando esta montanha não for maior que um grão de areia por causa da fricção do bico em sua rocha, ter-se-á passado um segundo da eternidade.”
(Lenda tibetana)

A agência espacial americana, a Nasa, levou ao mundo nesta semana uma notícia que certamente provocou comichões de surpresa nos escritores de ficção científica e comichões de alerta nas almas dos senhores líderes religiosos por este mesmo mundo afora. Estranhamente, tanto um grupo como outro tem o mesmo motivo para tais comichões: perda de suas fontes de inspiração.

Os cientistas do órgão americano extraíram um dos seis elementos químicos, o fósforo, que fundamentam o conceito de vida como esta era conhecida (até agora). Isto significa que a comunidade de pensadores biocientíficos não concebia a vida (até agora) sem esses elementos, argumentando que o processo vital não poderia existir em caso de ausência ou de oxigênio ou de hidrogênio ou de carbono ou nitrogênio ou enxofre ou de fósforo. Por curiosidade ou para provar suas teses, substituíram este último pelo elemento químico arsênio na composição de uma bactéria, elemento cuja presença é – ou era (até agora) – considerada letal para qualquer ser vivo na face da terra. Surpreendentemente, a bactéria se reproduziu facilmente nas águas do Lago Mono, Califórnia, e prosseguiu em sua busca por autoexistência. O nome temporário do ser vivo é GFAJ-1.

O cientista Nicolau Copérnico – Crédito: Reprodução

Ao longo da história, tem-se visto uma infinidade de contraposições da ciência em relação à religião e em relação a si mesma. Muitos estudiosos descobriram que seus colegas de décadas anteriores estavam enganados em relação a algum pensamento científico. É conhecida a história de Copérnico, de Galileu, de Home, de outros tantos que precisaram voltar atrás em relação a seus estudos sobre algum fundamento científico e enaltecer estudos de colegas que procuravam contradizer com provas.

Como via de regra ocorre com a maioria das descobertas de grande importância quando estas são postas a conhecer, a GFAJ-1 não significa muita coisa – sem trocadilho com a questão do tamanho microbiológico da coisa. Contudo, não é de todo improvável que esteja sendo vislumbrado agora – fins de 2010 – um prisma diferenciado do usado nos últimos milênios pelo qual se vê o fenômeno vida. Diferenciado tanto daqueles imaginados por ficcionistas quanto daqueles impostos por religiosos. Lubsang Rampa e Lutero que o digam em seus túmulos.

Até agora, a vida precisou de autorizações especiais para existir, que vinham ou de um ser absoluta e estranhamente superior ou de acasos esporádicos de personagens alienígenas de livros e cinemas. Em qualquer dos casos, a vida tem sido produto de idiossincrasias de seres distantes, incapazes de se fazer compreender por parte de suas criaturas, mas impostos como criadores certos por pura falta de opção, baseados em mistérios que não devem jamais ser perscrutados sob pena de ser iniciada catástrofe mundial em represália à curiosidade.

A bactéria GFAJ-1- Crédito: Divulgação

Até pouco mais de dois milênios atrás, as expectativas espirituais humanas eram dirigidas a diversos seres – Netuno, Zeus, Afrodite, Baco etc -, a depender das necessidades situacionais. Esse teoplurarismo ainda persiste, se se contarem as seitas africanas que se espalharam pelo mundo ou as hinduístas no oriente. De certa maneira, a vida dependia dos humores daqueles deuses e ainda é objeto de brincadeira dos deuses orientais atuais.

A partir da ficção, instituída na literatura depois de instaurado o conceito de monoteísmo na filosofia religiosa, os representantes dos infernos também passaram a ter poderes sobre a vida, exceto sobre a vida dos mocinhos e mocinhas das peças ficcionais. Freddy Krueger, Drácula, O Oitavo Passageiro, os estranhos e diferentes vilões de Stefhen King etc. ocupam espaço no pódio dos detentores do poder de vida e morte.

Até que Jesus, o Cristo, surgisse no cenário filosófico do mundo, o papel de criadores ou inimigos da vida era destinado aos deuses gregos, romanos, mesopotâmios etc., formato que resistiu até a era pós-Idade Média nas civilizações asteca, maia e inca do norte da América do Sul. Depois de Cristo, como a bondade absoluta era e é característica de Deus Absoluto, a sociedade precisou de um representante da fealdade absoluta e criou a ideia do rei do inferno, Lúcifer. Em que pesem questões políticas no tema – qual seja, expressão de poder sobre a massa mal-informada – esses dois opostos continuam servindo às glórias de poucos locados em altas esferas da hierarquia não oficial da humanidade.

Para complicar um tanto mais, por volta da Idade Média, o esoterismo ganhou espaço nas necessidades da vida. Então, não apenas deuses ou satanases tinham predominância sobre a vida, mas os elementos invisíveis também. Foi assim que a saúde passou a depender de cristais, o humor passou a depender de cores, os relacionamentos passaram a depender de magias, as cartas começaram a ditar futuros, as simpatias a redesenhar controvérsias. Aquela hierarquia não oficial da humanidade ganhou novos representantes.

Ou seja, ao longo de sua existência, a vida e seu extremo oposto, a morte, sempre dependeram de causas externas, de um produtor absoluto, de um ente a cuja bondade se pudesse impor todas as expectativas de felicidade ou a cuja maldade se pudesse fundamentar todas as tristezas das desilusões. Neste contexto, o homem, representante máximo da vida, nunca teve exatamente domínio sobre sua existência.

Vista do Lago Mono, na Califórnia – Crédito: Divulgação

Antes de simples e futilmente pretender contradição a muitas filosofias criadas na história do mundo, a ciência busca fundamento para fenômenos observáveis e a intuitivos, igualmente. Essa guerra secular tem provocado brigas intestinas em instituições, cisões monstruosas em religiões, desamores em individualidades, desilusões em detentores da fé. Não obstante tudo isso, a pergunta mais eminentemente desconfortável, mais profundamente exposta, mais intimamente levantada permanece sem resposta: o que é vida?

Ou permanecia. A bactéria da controvérsia é certamente o passo inicial da busca da possibilidade de que haja probabilidade de que talvez se consiga atingir o mínimo nível do máximo terreno da lógica na resposta. Ou seja, uma resposta plausível será obtida talvez em um milênio ou, com sorte, em alguns séculos. Até lá, o homem contemplará lenta alteração na maneira como entende a vida. E então, o paraíso poderá ser instaurado na Terra, pois já não haverá deuses para impor ao homem o comportamento que deveria ser intrínseco em seu dia a dia nem diabos para fazê-lo temer comportamento que há muito – desde que passou a observar o mundo exterior a si próprio – deveria estar extinto de seu dia a dia.

Isto é, homem viverá sem as muletas filosóficas que o trouxeram até esta civilização e passará a entender o futuro como produto único e exclusivo de suas próprias escolhas – escolhas conscientes, pois que estas escolhas serão motivo de análise única e exclusiva de sua consciência, não de seres ou conceitos desfundamentados de lógica. Ou, antes, fundamentos em ilógica.

Ao terminar este texto, uma observação provoca um comichão: até o momento, não se tem notícia de um dia a ciência ter sido contradita pela religião. Mas a História é repleta de pontos religiosos contrapostos pela ciência. Esta bactéria, queira-se ou não, representa a fusão dos dois conceitos, ainda que tal fusão se realize somente num futuro muito distante e, até então, surta mais brigas intestinas, mais cisões, mais desilusões.

A simples ideia de que a vida de insetos e pequenos animais não se origina do acúmulo temporário de lixo em um canto qualquer precisou de séculos para ser dissipada da comunidade “científica”, há alguns séculos – se bem que ainda há nichos atrasados na África que ache que somos criados das fezes de rato; a contra-argumentação à crítica ideia de que a Terra não era, e jamais fora, o centro do Universo extirpou a vida de muitos pensadores durante séculos antes de ser aceita como razoável. Certamente, a GFAJ-1 precisará de muito tempo para se desvencilhar da cadeia de reação dos que ainda imaginam que é possível manter a massa sob controle a partir da ignorância conceitual.

Mas já é um grande começo.

out 2010 21

por Serg Smigg
comportamento@blogdacomunicacao.com.br

Uma das prerrogativas dos autores de livro de autoajuda e ministrantes de palestras motivacionais é passar a ideia de que o impossível é possível. Essa tarefa, em si e por si, já é impossível, mas os envolvidos no trabalho não desistem nunca. Nem devem desistir. Afinal, por procedimentos tortos, acabam trabalhando certo. Em que pesem conceitos psicológicos e sociológicos no assunto, convém olhar para o outro lado da moeda, aquele lado que mostra o direito de cada um ser como realmente é e a incapacidade de todos de viver fora de suas próprias fundamentações.

Convivo no mundo corporativo há muito tempo, anos bastantes para ter observado todos os lados da moeda, inclusive o terceiro. Tenho visto palestrantes motivacionais teatralizando suas performances de forma tal que, aos assistentes, tudo parece possível. A partir de então, você pode ser o dono do mundo – literalmente –; basta não desistir nunca, confiar sempre, buscar seus sonhos ininterruptamente e desprezar tudo o que significa falta de empenho.
È quase possível notar autores de livros de autoajuda digitar avidamente com a língua de fora, olhos atentos à tela, coração disparado, dedos ágeis, em busca de mercado e de leitores. Em suas páginas, a realidade é toda manipulável, o tempo é todo controlável, as situações são todas assimiláveis. Tudo o que você precisa fazer é não desistir nunca, confiar sempre, buscar seus sonhos ininterruptamente e desprezar tudo o que significa falta de empenho.

Tanto para palestrantes como para autores, você só não chega lá se não quiser, pois querer é poder, a esperança é a última que morre, a persistência é matéria-prima dos sonhos, a motivação é a estrada para vitória. Tomam suas próprias experiências como caminho para o sucesso e incutem na cabeça de seus leitores que elas lhes servirão de base para seus próprios sucessos e, caso não cheguem ao sucesso, o problema será certamente a falta de empenho e de sonhos.

É necessário, entretanto, que se veja o outro lado. As pessoas não são iguais, obviamente; ou seja, a experiência de João pode não servir para Pedro. (Falando-se em termos de física quântica – veja-se Efeito Borboleta – a tomada de atitude gera futuros incertos. Portanto, qualquer atitude que se toma em função de ideias não gera, necessariamente, o mesmo futuro que o vivido pelo autor do livro ou ministrante da palestra.) Por outro lado – e aqui se está foco deste texto – há pessoas inseguras, há pessoas inativas, há pessoas desconfiadas etc. Portanto, não se pode querer que as pessoas ajam segundo critérios de alguém em especial.

Num universo de cem leitores de livros de autoajuda ou de assistentes de palestras, um ou dois chegarão a algum resultado satisfatório. Aos outros, restará a frustração de não conseguir, restará a sensação de inutilidade, de impotência, de incapacidade, restará a imagem da incompetência no espelho.

Há alguns meses, a notícia da chacina em território mexicano, da qual foram vítimas mais de trinta pessoas, inundou a mídia do país porque havia dois jovens brasileiros dentre as vítimas. Em matéria na revista IstoÉ de duas semanas depois, soube-se que os dois jovens, de Governador Valadares (MG), mantinham o sonho tupiniquim de chegar ao território americano havia já muitos anos. Tudo fizeram por seus sonhos, jamais se deixaram levar pelos pensamentos pequenos de amigos que tentavam mostrar a eles a realidade, acordavam com a viagem na cabeça e dormiam com ela em suas órbitas mentais. Ou seja: se empenharam ao máximo.

E morreram. Morreram porque alguém se lembrou de lhes dizer que não deveriam desistir nunca, mas se esqueceu de comentar que precisavam manter os pés no chão. Este texto compõe um movimento iniciado há alguns anos por alguns palestrantes instrucionais (não motivacionais), eu dentre eles, cansados de ver grassar no mercado livros cujos títulos, por si, já enganam: Seja Vencedor; A Vitória É Sua; Como Conquistar um Futuro Melhor etc. etc. etc. que, nas entrelinhas, conspiram para que os cérebros de incautos estejam cada vez mais manipuláveis.

De maneira indireta, a atriz Márcia Cabrita viveu um período no calvário dos dedos apontados para si. Em sua entrevista na revista IstoÉ, ela fala de seu drama com o câncer, mas evidencia que o comportamento bem intencionado de amigos, que muitas vezes beira o desplante inconsciente, acaba surtindo efeito contrário. “Atribuir ao esforço e à motivação interna do doente a capacidade de cura também é uma crueldade”, diz ela.

Ao expor seu ponto de vista, Márcia Cabrita presta um grande apoio às pessoas que compõem o 99,99% do grupo de leitores de autoajuda que não conseguem chegar lá após a leitura. Mais que isso, a atriz mostra que não basta ter boas intenções, como é o caso da maioria dos autores desse tipo de literatura: é preciso ter respeito pelo ser humano que todos buscamos ser.

Alguém poderá dizer: mas eu li tal livro e me fez muito bem. Fica a pergunta: Fez mesmo?

Márcia não descuida da aparência: está usando peruca e retoca cílios e sobrancelhas com maquiagem – Crédito: Divulgação
set 2010 11

por Serg Smigg
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O assunto deste texto certamente é, para a maioria das pessoas, relevante no aspecto pelo qual deveria ser fútil e bastante indiferente no aspecto pelo qual deveria ser altamente relevante: programas de televisão.

Estudos sérios mostram que manifestamos nossa personalidade no dia a dia a partir de atitudes geridas pelo inconsciente, bem ao largo da ideia contida na expressão “fiz sem pensar”. A roupa que escolhemos pela manhã, a maneira como dispomos as mãos enquanto conversamos, os olhares que oferecemos diante de determinadas situações, os programas de TV a que assistimos, enfim, ainda somos em realidade um objeto obscuro de pesquisas. Mas já é possível determinar certos parâmetros de comportamentos segundo análise de décadas, de séculos de história de relações do elemento humano e seu mundo exterior.

Quando aceitamos passivamente inclusão de certos conceitos em nossa vida sem apararmos a mínima aresta, estamos em verdade tornando nossa mente extremamente propícia a efeitos produzidos por mentes terceiras. Isso transforma o ser humano em replicador de ilusões. Não há necessariamente que se tornar uma espécie de eremita filosófico e rechaçar toda ideia que não a própria – isso transformaria o ser humano em destruidor de novas ideias -, mas é de grande bom tom que se respeite a si próprio e se busque dentro de si mesmo base sólida para se aceitar ideias novas.

É saudável o hábito de observar incansavelmente antes de criticar, elogiando ou condenando, seja o que for. A primeira noite do primeiro Big Brother Brasil, há dez ou onze anos, deveria servir como parâmetro para o que se veria depois: a hediondez humana levada ao extremo. Nos quarenta minutos iniciais foi possível ver a dignidade humana ser posta a crivo e, infelizmente, perder força. Já nas primeiras cenas, viram-se corpos expostos como mercadoria, carreiras desenhadas em fama a qualquer custo, palavras fúteis fundamentando ideias toscas sobre relacionamento; viram-se olhares vãos em oportunidades perdidas; a condição humana de um grupo de humanos sendo manipulada à bel-necessidade do gosto de milhares de outros humanos, este medido por uma máquina que pretende traduzi-lo em número, o da audiência. Se se usasse o bom senso, nunca mais se conseguiria ver mais nada referente ao programa.

O novo reality show da Globo, Hipertensão – Crédito: Reprodução de TV

O primeiro dia do autodivulgado show de ação e aventura que pretendia ser o Hipertensão, da emissora de TV Globo, foi algo parecido com o que Dante gostaria de imaginar para A Divina Comédia, mas sua inspiração não chegara a tanto. Pessoas com sonhos simples, com sentido de vida simples, buscando ferramentas complexas para se autodisporem em evidência. Novamente, corpos desnecessariamente expostos em movimentos em demasia calculados para aparecer na edição seguinte da revista para adultos, masculina ou feminina; fundamentos vitais do elemento humano sendo imbecilizados pela força da lente da câmara da emissora; a questão crucial dos relacionamentos humanos relegada ao calculismo dos que apenas veem a si próprios e ouvem as próprias palavras apenas; vaidade excessiva travestida de autoestima; oportunismo selvagem mostrado como competitividade.

A cabeça humana é surpreendente. A mesma mente que cria crônicas fantásticas, como as de Pedro Bial, saúda a degradação da civilização atual – via BBB – como passo rumo à evolução; a mesma boca – Glenda Kozlowski – que discute o esporte como instrumento de superação acompanha – vibra, mesmo – com cenas em que jovens ávidos por evidência ingerem poção feita de óleo, fígado cru e vermes ou enfiam o rosto num recipiente com baratas para apanhar com a boca um objeto qualquer e assim receberem o título de vencedores. Ou de heróis, segundo os critérios de Bial.

Provavelmente, Voltaire anteviu a inapetência do orgulho positivo da sociedade do séc. XXI ao dizer “Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres”. Este texto não faz apologia à censura, não propõe discussão sobre ser ou não viável que o que se vê na TV, se ouve no rádio, se acessa na internet seja antes passado pelo poder de autoridades. Longe disso. Este texto se coadunaria com Voltaire caso ele vivesse hoje e dissesse “não concordo com o que transmites em tua emissora, mas defendo até a morte o direito de o transmitires. Entretanto, dá-me também o direito de rechaçar o que idealizas com isso, se assim eu julgar conveniente”.

De outra forma, somos o que exprimimos no dia a dia. Rejubilar-se com casas reformadas e doadas a famílias nos programas de domingo não anula a mórbida curiosidade pelas desgraças dessa mesma família, antes exploradas ao máximo no mesmo programa; é estranho ver sessões de orações em prol dos desvalidos na mesma emissora na qual se veem incríveis vídeos de alcoólatras tentando subir uma rua íngreme sob gargalhadas de outros humanos; é surreal observar programas de discussão sobre pedofilia no mesmo canal em que se veem meninas sem curvas rebolando diante das câmeras e de júris que as aprovarão ou não em suas tentativas serem ridículas, sob aplauso e sorriso das mães.

Mas há bons programas nessas emissoras”, dizem críticos cegos. Ora… sim, realmente há. E se são capazes disso, que se enalteçam os pontos bons para que se evitem os ruins. “Mas esses programas dão emprego para muita gente”, dizem os críticos hipócritas. Sim, dão. Traficantes de drogas e políticos corruptos também dão. “Mas os produtores de programas como esses buscam apenas alegrar a vida do brasileiro”, dizem os críticos ingênuos. Sim, a cocaína também pode produzir o mesmo efeito nos usuários: ilusão de alegria e prazer.

Por milênios, a natureza vem construindo a mente humana pacientemente. Tira um neurônio daqui, coloca outro lá, adapta um DNA acolá, reforça defesas ali, melhora um sistema antes inapto. Mas alguns humanos, parece, não dão conta da importância de reconhecer esse esforço. Certamente, perderão o bonde da evolução e serão engolidos por novas ordens conceituais e, no futuro, serão enumerados por cientistas como raças que foram dizimadas por algum fenômeno desconhecido.

ago 2010 24

por Serg Smigg
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Há algumas décadas, o ambiente corporativo deixou de requerer comportamento ortodoxo. A formalidade esmagadora de antes, anunciada já chegada com o barulho do cartão de ponto – para muitos representação sonora das correntes amarradas nos tornozelos dos escravos -, já foi ultrapassada há muito, não sendo mais necessário que funcionários se levantem de suas escrivaninhas para cumprimentar o chefe ou o diretor, pela manhã.

O ambiente físico sem luz adequada parecia ser a própria materialização da impressão de prisão que as corporações exprimiam; como resposta inconsciente dos funcionários, a disposição desordenada das mesas, dos livros, dos documentos nas estantes, tudo parecia traduzir seus sentimentos em relação à empresa. Muito debilmente e muito a fórceps, as empresas conseguiam lucros interessantes e imagem de mercado adequada. Somente grandes corporações, e dirigidas por mentes vanguardistas, se situavam de maneira a se diferenciar.

Hoje, a evolução do relacionamento em geral chegou ao relacionamento corporativo. Comportamentos antes considerados inadmissíveis são reconhecidos como necessários ao ambiente de trabalho, como sorrisos, competitividade, visão de futuro etc. Mas talvez a mente humana não tenha aprendido a conviver com tal evolução.

O dia a dia corporativo é um complexo mundo à parte das expectativas de escalões altos de uma empresa. Por mais que gerentes e supervisores se imaginem senhores da situação, muitas circunstâncias escapam do poder de percepção humana, ainda que tais gerentes tenham passado horas e horas em cursos diversos de gestão. O simpático beijo em ambiente de trabalho é um dos elementos daquelas situações.

Ao oferecer o rosto para um beijo de bom dia nas manhãs, os funcionários estão oferecendo mais que simples intimidade: oferecem um universo mútuo de pactos, que pode ou não ser benéfico para a empresa. A mente humana recebe impressões constantemente e com elas vai formando seu mundo interior. A partir deste, desenha seu comportamento que é, por sua vez, expresso no gestual, olhares, considerações situacionais etc.

Num ambiente em que haja dez colaboradores, é possível que a troca de beijinhos matinais seja feita apenas entre alguns, o que obviamente exclui um ou outro. Por outro lado, mesmo entre os que tiveram o privilégio de ser escolhidos para receber o beijo, pode haver um que, de maneira inconsciente, note que João foi beijado um pouco mais intensamente; ou pode imaginar que recebeu um beijo um pouco mais intenso. Ademais, também é possível que, por algum motivo, a amizade de pessoas que se beijem pelas manhãs esteja temporariamente estremecida. O constrangimento é certo. A equipe pode não saber lidar com isso, o que refletirá em geração de ambiente inadequado para troca de informações sobre clientes, produtos, circunstâncias.

Quando o beijoqueiro tem cargo relevante, então, o universo de impressões se amplia. A impressão de separativismo pode se instalar tanto em quem não é beijado como em quem, sendo beijado, acha que merecia um beijo mais amigável, mais forte, mais simpático etc. Com o tempo, tais impressões vão originando sensações diversas.

Intimidade, por exemplo. Pode ser que o empenho não esteja sendo alcançado porque, afinal, sou especial porque minha chefa me beija de maneira diferente; ou então, não vou me empenhar… meu chefe nem um beijinho me dá. Obviamente, isso não se dá na esfera consciente, mas, como dissemos acima, o comportamento do ser humano é construído ao longo do dia a partir de alanches de impressões que acaba refletindo em sua simpatia, empatia, colaboracionismo, responsabilidade etc.

É claro que o beijo corporativo, por si e apenas, não acarreta catástrofes econômicas nem impede fechamentos de grandes contratos. Mas, em sendo parte de um conjunto, certamente tem função especialmente relevante no rol de motivos para geração de ambiente estressante. Empresas grandes gastam rios de dinheiro em esquemas motivacionais. Entretanto, detalhes do dia a dia, que passam despercebidos, podem ser instrumento de desmotivação. O ortodoxismo é uma das portas para o insucesso; a informalidade é a janela.

jul 2010 30

por Serg Smigg
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A sociedade brasileira está alerta. A chamada Lei da Palmada promove reflexão importante que vai muito além do campo da psicologia – incluindo-se neste a infantil –, sociologia e antropologia, arranhando até conceitos filosóficos. Observando-se a quantidade de notícias sobre abuso e violência contra a infância – que a atual tecnologia da informação apenas escancarou, porquanto sempre existiram –, a ótica demonstra que a Lei é necessária. E urgente. Entretanto, há que nortear bem o conceito de violência contra a criança.

É impossível desenhar os meandros da mente humana. Em determinado momento, um duro olhar paterno – e a constância de duros olhares – pode marcar eternamente a personalidade de uma criança e torná-la um futuro ser inseguro, sujeito à depressão e comportamento reprovável; por outro lado, um tapa na mão ou uma palmada no traseiro pode determinar limites e demonstrar à criança que transgressões requerem consequências. Tudo depende da postura dos pais no momento da reprimenda.

E é aí que o barco certamente entorna porque, por sua vez, o comportamento do adulto sofre interferência do dia a dia, especialmente em uma civilização na qual valores estejam tão invertidos, como é a atual. As pressões sociais do cotidiano – desemprego, incapacidade de melhoria de vida, assaltos, corrupção etc. – levam para dentro do consciente humano notícias de um mundo estranho. Lentamente, essas notícias se chocam com os valores pessoais criados ou reconhecidos ao longo da vida e vão reverberando na cabeça de cada um de nós.

Então, no supermercado, a criança lança mão de sua arma mais potente, a birra, para conseguir o brinquedo que viu na prateleira. Chora, faz escândalo, se agacha. Se você não tiver controle sobre aquele choque interno de valores, certamente será vítima de compreensível perda de paciência. (“Neste caso”, diriam alguns, “basta educar os filhos para que não façam birra”. Este é argumento típico de quem jamais teve filhos. Uma criança pode ser educada para não fazer birra, mas isso leva tempo. Até lá, vai fazer, certamente. Não fazer birra é sintoma de algum problema de comportamento infantil porque a birra é normal na criança. E necessária. Mas isso é outro assunto.)

E você, concorda com a lei das palmadas? – Crédito: Reprodução

Um relacionamento se constrói com o tempo. Os instrumentos de construção são elementos pessoais que ninguém pode entender consideravelmente sem correr riscos de juízo de valor inconsequentes. Ouço Felipe Scolari, técnico de futebol, falar das palmadas que recebeu do pai com o carinho do filho que reconhece a autoridade daquele. Seus olhos deixaram as lágrimas da saudade mostrarem a falta que sente do velho porque o velho me tornou um homem de bem também com o peso da sua mão. Marília Gabriela chegou ao ponto de agradecer à mãe pelas cintadas corretivas nos momentos certos.

Por outro lado, o pai que jamais deu um beliscão no filho e oferece cerveja ele, que encoberta seus pequenos delitos, que contrata advogados para defendê-lo na justiça depois que ter este ateado fogo em mendigos na rua, que suborna policiais para alterarem cenário de atropelamento, que tipo de espaço vai ocupar na lembrança dos filhos daqui a alguns anos?

No exato momento em que escrevo este artigo, a notícia de espancamento de uma criança de três meses por parte do padrasto lateja em minha cabeça; a lembrança do explorado Caso Nardoni também; o da americana que afogou os três filhos em um lago porque seu namorado não gostava deles me mostra que a violência contra crianças não tem fronteiras nem nacionalidade; e outros casos mais. Contudo, também chocam outros tipos de violência contra a criança. Vejam-se os programas semanais de calouros nos quais pais ineptos expõem seus filhos a ridículos em nome de famigerada egolatria. Crianças de cinco, seis, dez, treze anos, com timbres inseguros de vozes ardentes cantam horrivelmente e disputam vagas como se disputassem vidas. Choram as que não vencem; tornam-se pedantes as que “vencem”, – e “vencem” segundo critérios imbecis de adultos medíocres em busca de ibope.

Vejam-se festas de aniversários infantis, nas quais os pais colocam no aparelho de CD arremedos sonoros que a hediondez humana insiste em chamar de música. Menininhas sem a mínima noção do que fazem rebolam seus pequenos quadris numa imitação sórdida de sensualidade horrível. Vejam-se pais que levam seus filhos a tira-colo nos estádios de futebol em finais de campeonatos. Gritam seus palavrões, vociferam contra o time adversário, brandam rojões em direção ao goleiro frangueiro, assoviam para as marias-chuteiras ao lado, corrompem e são corrompidos por cambistas às vistas do filho.

Vejam-se políticos que, em campanha, apanham no colo crianças desconhecidas e posam para fotógrafos contratados para construir suas imagens hipócritas. Acariciam seus rostos e, depois de eleitos, arrocham o salário de seus pais e desrespeitam as leis da nação. Big Brother, Gugu, Meu Pai é Melhor que seu Pai, Pânico, Horário Eleitoral etc. deveriam estar incluídos como objeto da Lei da Palmada. E os Ratinhos que agitam seu cassetete todas as tardes, que mostram mães – e, por extensão, seus filhos – brigando na TV para provar quem é o pai, que diz claramente que assaltante tem de ser morto mesmo, esse tipo de agressão contra a criança deveria estar enquadrada em que tipo de lei?

Uma bela frase tem circulado na internet e nos parece bastante concernente a este tema: “estamos tão preocupados com o tipo de Planeta que vamos deixar para nossos filhos que nos esquecemos de nos preocupar com o tipo de filhos que vamos deixar nosso Planeta”.

Com toda certeza, a Lei da Palma não está preocupada com planeta algum.

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