Por Henrique Torres
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Existem muitos conceitos importantes que pairam no ar sem justa definição. Tais são, por exemplo, o conceito de Justo, de Verdadeiro, de Belo ou de Bem. Difícil definir cada um destes com precisão. Apenas temos deles uma noção muito geral. Não tenho a pretensão de tentar defini-los aqui. Apenas quero propor uma reflexão acerca de um deles: o Bem.
Nosso mundo é perpassado por duas noções de Bem. A primeira é muito antiga, remete aos tempos da ancestralidade do homem, séculos antes de Jesus Cristo. A segunda foi resultado do rompimento com a primeira. A primeira noção é a de que o Bem é aquilo que é “nosso”. “Nosso” aqui significa a propriedade de certo individuo ou grupo de indivíduos. Para exemplificar: antigamente, se eu fosse ateniense, diria que tudo aquilo que é bom, ou é de bem, é aquilo que pertence à Atenas; e do mesmo modo, se eu fosse espartano diria que o Bem ou o Bom é aquilo quer pertence à Esparta. O grande problema aqui ao considerar aquilo que é meu como Bem, é que eu necessariamente devo considerar aquilo que é do outro como Mal.
Este parece um modo estranho de pensar? Um modo antiquado ou como eu mesmo defini, ancestral? Infelizmente este modo de pensar o Bem está muito mais presente do que deveria, apesar de muitos anos de reflexão e desenvolvimento intelectual. Existem muitos exemplos, que vão dos mais antigos e incomuns, aos mais presentes e cotidianos. Veja só: Qual conceito de Bem devia ter Hitler quando provocou o Holocausto e a Segunda Guerra? Muitos dirão que tal homem não podia ter conceito nenhum de Bem. Porém ele tinha. Ele buscava o Bem próprio, do nazismo e de certa forma da “raça pura”. Ou seja, nada mais natural do que esmagar aqueles que eram diferentes dele. O que se passa com grande parte das religiões quando consideram que sua religião é a certa (o Bem) e as outras as erradas (o Mal)? O que se passa na mente a grande maioria dos integrantes de torcidas organizadas que se envolvem em brigas sem fim contra outras torcidas? Nada mais do que isso: o Bem não é o outro senão seus ideais, suas crenças, ou (num exemplo muito mais esdrúxulo, mas que representa bem a presença do problema na atualidade) do seu time.

Prisioneiros de Auschwitz - Crédito: Divulgação.
Esse é o tipo de Bem do terrorismo. Bin Laden parece não ter em mente mais do que a destruição daquilo que é símbolo do modo de vida ocidental, o grande mal de todos os tempos, os Estados Unidos. É exatamente este tipo de pensamento, por parte da grande maioria dos terroristas espalhados pelo mundo, que os levam a realizarem seus ataques. De maneira sucinta, no caso de Bin Laden e de muitos outros terroristas, a distinção entre Bem e Mal é a mesma que existe entre oriente e ocidente.
Para não deixar de falar num dos exemplos mais recentes de terrorismo, que se note o ataque ao metrô russo. Pode-se objetar que os motivos dos ataques foram diferentes dos objetivos “comuns” do terrorismo. Isto é, o ataque ao metrô russo foi feito por parte de um grupo terrorista separatista, que no limite, almeja liberdade. É de se pensar, contudo, em que medida esta matança de inocentes se justifica, e em que medida os rebeldes terroristas deste grupo separatista não buscam mais do que o Bem próprio.

Atentados ao metrô russo - Crédito: Divulgação
Para não concluir com este cenário desolador de pensamentos sobre o que é o Bem, mostrarei qual é a segunda noção de Bem (da qual falei no inicio) e que resultou do rompimento com a primeira. Se a primeira noção é a de um Bem individual, não é difícil chegar à conclusão de que a segunda seja um Bem coletivo, que seja comunicante a todos os indivíduos. E qual seria atualmente o exemplo mais perfeito deste tipo de Bem, um Bem que se comunica a todos os indivíduos da espécie sem fazer qualquer distinção entre nação, religião, time ou qualquer outra coisa do gênero? Os direitos humanos. Tal declaração nada mais é do que a busca de um Bem que se funda na natureza do ser humano, ou seja, não é preciso nada mais do que ser um ser humano para usufruir de todos os bens que os direitos humanos asseguram. Contudo, as coisas não acontecem desta forma. Seria muito bom que as coisas fossem assim tão simples, mas não são. Infelizmente os direitos humanos são por todos os lados infligidos e desrespeitados. Mesmo assim, eles são um grande ganho para a humanidade, que com eles corre menos o risco de ver surgirem novos Auschwitz. Ou seja, apesar de todos os desrespeitos aos direitos humanos, nós já não podemos mais abandoná-los sem o risco de retornar a barbárie.