fev 2010 26

A humanidade sempre precisou de mártires. Mas, por que? -- Crédito: www2.uol.com.br

Por Henrique Oliveira
internacional@blogdacomunicacao.com.br

Não faz muito tempo que o Brasil assistiu apreensivo á greve de fome do Frei Luiz Flávio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), em protesto á transposição do rio São Francisco. Na Ocasião, Frei Luiz havia dito que não cessaria seu protesto, a não ser que as máquinas que estavam no rio não fossem paralisadas e o governo discutisse alternativas mais adequadas para o Semi-Árido. Não deu certo: o Frei, já debilitado, terminou a greve, e as obras da transposição não foram interrompidas. Porém, toda a mídia deu cobertura privilegiada ao caso. E a polêmica sobre a questão do “velho Chico” pode aparecer a muita gente que de nada sabia.

Outro exemplo nos veio nesta semana, quando o mundo viu mais um caso famoso de greve de fome sobressair na imprensa. Desta vez, o preso político cubano Orlando Zapata, de 42 anos, detido desde 2003 para cumprir uma pena de 32 anos por “desacato à autoridade”, desordem e outras acusações, morreu em Havana depois de uma greve de 82 dias!

Mais do que uma mera morte ligada à política cubana, o falecimento de Zapata (que, inclusive, tem um nome bem emblemático e sugestivo) motivou a exigência, por parte de diversos países, da libertação de presos políticos na “Ilha dos Castro”. Apesar das constantes negativas das autoridades em Havana, diversas entidades internacionais acusam o governo cubano de manter vários dissidentes políticos presos. As autoridades do país, entretanto, dizem que os presos não são dissidentes, mas sim meros detidos, que enfrentam acusações por atos contra a “segurança do Estado e da população”…

Como pudemos ver no exemplos citados, a greve de fome, com todo o seu risco, ainda assim, consegue em muitos casos atingir seu “objetivo”: ela mobiliza o foco dos holofotes midiáticos para uma situação polêmica e que precisa ser discutida nos âmbitos nacionais e internacionais. Tanto no caso da greve iniciada pelo Frei Luiz, quanto na trágica morte do militante cubano, o que nos chama a atenção é que a greve de fome “funciona”. Afinal, quando o caso e clamar pela sensibilidade da opinião pública, nada melhor do que um sacrifício.

Tanto é assim que hoje mesmo no portal Uol notícias se pode ler que “Cinco dissidentes cubanos, quatro deles na prisão, iniciaram uma greve de fome, para protestar contra a morte do preso político Orlando Zapata, [...]. Os quatro prisioneiros – Diosdado González (de 47 anos), Eduardo Díaz (58), Fidel Suárez (49) e Nelson Molinet (45) – estão reclusos na penitenciária de Pinar del Río, a 150 km a oeste de Havana [...]. O ex-preso político Guillermo Fariñas, de 48 anos, jornalista independente, faz greve de fome em sua casa, em Placetas, na província central de Villa Clara, ‘negando-se, inclusive, a beber água’ desde a noite de quarta-feira.

Assim como no caso de Zapata, fica evidente que estes novos “grevistas” querem chamar a atenção da opinião internacional e, principalmente, da mídia para o seu problema. Mas, será mesmo que é preciso que riscos humanos tão altos ocorram para que o mundo e a sociedade enxerguem suas mazelas e as autoridades tomem alguma providência? Tão radical medida não deveria ser modelo de protesto em nenhuma situação. Mas, sinceramente, em muitas ocasiões de descaso, essa parece ser a última saída para curar a nossa “cegueira voluntária”…

O problema é que, a todo o momento, atestamos a eficácia do sacrifício em nome das “boas causas”. Parece até que dependemos desses sacrifícios para fugir da letargia contagiante oriunda da nossa própria acomodação. Foi assim com Gandhi, Mandela, e outros mártires: eles precisaram morrer ou quase morrer para que enxergássemos o que está a um palmo do nosso nariz…

Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina
Henrique Oliveira

Jornalista e blogueiro, atualmente Henrique é editor do site Incomode-se. Tendo experiência com leitura de peças fílmicas e culturais. É, também, autor de artigos publicados nas áreas de comunicação, política, Ciências Sociais Aplicadas. É cinéfilo convicto! Na literatura interessa-se por grandes obras da literatura mundial, indo desde Machado de Assis até Falkner! No debate procura o que foge do consenso. É intensamente instigado pela iquietude do diálogo a pelas portas abertas das novas idéias. Por isso, está, também, sempre aberto a novas parcerias e debates!

2 comentários

  1. Gosto tanto das informações que consigo aqui, que resolvi te presentear. Visite meu blog. Bjsss

  2. Guilherme Freitas disse:

    A ditadura de Cuba não tem nada a haver com os ideiais pregados por Fidel há meio século atrás. Clóvis Rossi escreveu recentemente uma bela crônica intitulada “O sonho que virou pesadelo”, se referindo a Revolução Cubana. Infelizmente ele está certo. Abraços

Deixe um comentário!