Por Henrique Torres
educacao@blogdacomunicacao.com.br
Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão do século XIX que exerceu e exerce muita influência até hoje. Escreveu diversas obras, das quais mencionarei apenas um livro chamado “Crepúsculo dos Ídolos”, que contém passagens que me interessam no momento. Num capitulo deste livro (“Do que falta aos Alemães”) Nietzsche critica brutalmente o ensino superior alemão por razões que ficarão evidentes adiante. Cito então um trecho do livro para que se veja não a brutalidade da critica às universidades alemãs, mas algo que é muito mais interessante para nós por tocar na realidade das universidades brasileiras, isto é, o conteúdo da crítica Nietzchiniana. Diz Nietzsche:
“O que o ensino dito “superior” alemão obtém de fato, é um adestramento brutal que permite, perdendo o menor tempo possível, tornar uma multidão de jovens, úteis – exploráveis – para o serviço de Estado. “Educação superior” e multidão inumerável, eis bem aqui uma contradição de principio. Toda educação superior se destina apenas às exceções. É necessário ser privilegiado para poder pretender um privilégio tão alto. Todas as grandes, todas as belas coisas, não podem jamais ser do domínio público. (…) O que é que determina a decadência da cultura alemã? O fato de que a “educação superior” não seja um privilégio – o democratismo da cultura “geral” tornado “comum” e vulgar”.
O que Nietzsche escreveu lembra algo? A mim, lembra muita coisa. E dentre estas coisas, lembra principalmente o estado em que se encontra a universidade pública brasileira. Uma universidade para a grande elite e para alguns eleitos. E aí é onde mora toda a ironia de ler Nietzsche e viver com esta realidade. Isto é, Nietzsche era extremamente elitista, sendo que o problema da cultura alemã para ele, era o fato de qualquer um poder chegar até uma universidade e ter acesso à cultura. Segundo Nietzsche a cultura é algo superior, e por isso só os homens superiores podem ter acesso a ela, ou seja, universidade e cultura são coisas para uns poucos, ou melhor, para os “grandes”.

USP: A maior universidade brasileira e provavelmente o maior exemplo de universidade para a elite. - Crédito: globo.com
E não é exatamente isso que se passa com as universidades públicas do Brasil, apesar de estarmos em um país democrático onde o direito à educação (inclusive a superior) é assegurado pela constituição? E mais ainda, pelos direitos do homem e do cidadão? Não são exatamente aqueles que têm condição de pagar uma universidade particular (a elite, ou as “exceções” segundo Nietzsche), que mais ingressam em universidades públicas no Brasil? E onde ficam aqueles que não podem arcar com as despesas de uma universidade particular, e que por isso deveriam estar em universidades públicas? Em três lugares: fora da universidade, sofrendo para pagar uma particular, ou dentro da universidade particular, mas beneficiado por algum programa do governo. Programas que de forma geral são ruins por serem medidas que afirmam essa realidade brasileira ao invés de transformá-la. Quero dizer que, com todo o dinheiro que o governo dá às universidades particulares por meio do PROUNI, por exemplo, (e diga-se de passagem que a maioria dessas universidades são péssimas) daria para aumentar em muito as vagas em universidades publicas, sem falar na possibilidade de criar e manter outras novas universidades.
Em resumo, coloco tudo isto aqui por que acredito que seja um dos maiores paradigmas da educação brasileira, algo da qual sempre ouvimos promessas revolucionárias todas as vezes que alguém tenta se eleger em algum cargo político, mas que na realidade nunca é tratada com a devida importância que merece. Paradigma este que se expressa no fato de termos muitos da elite nas universidades publicas, e alguns que não fazem parte da elite e são eleitos pela sorte para estar lá. Isso faz com que nos questionemos não se o Brasil vai continuar crescendo nos próximos anos, ou se a economia brasileira vai permanecer forte. As questões que nos assaltam, são sobre a esperança que temos na possibilidade de que o Brasil seja um dia um país que preze pela educação assim como preza pela economia.
*Nota: A citação do texto de Nietzsche foi feita a partir da edição da Collection Folio, da obra Crépuscule des Idoles (em francês), páginas 54 e 55. A tradução é livre. Os trechos em itálico são grifos do autor. Os em negrito são meus.