por Serg Smigg
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A sociedade brasileira está alerta. A chamada Lei da Palmada promove reflexão importante que vai muito além do campo da psicologia – incluindo-se neste a infantil –, sociologia e antropologia, arranhando até conceitos filosóficos. Observando-se a quantidade de notícias sobre abuso e violência contra a infância – que a atual tecnologia da informação apenas escancarou, porquanto sempre existiram –, a ótica demonstra que a Lei é necessária. E urgente. Entretanto, há que nortear bem o conceito de violência contra a criança.
É impossível desenhar os meandros da mente humana. Em determinado momento, um duro olhar paterno – e a constância de duros olhares – pode marcar eternamente a personalidade de uma criança e torná-la um futuro ser inseguro, sujeito à depressão e comportamento reprovável; por outro lado, um tapa na mão ou uma palmada no traseiro pode determinar limites e demonstrar à criança que transgressões requerem conseqüências. Tudo depende da postura dos pais no momento da reprimenda.
E é aí que o barco certamente entorna porque, por sua vez, o comportamento do adulto sofre interferência do dia a dia, especialmente em uma civilização na qual valores estejam tão invertidos, como é a atual. As pressões sociais do cotidiano – desemprego, incapacidade de melhoria de vida, assaltos, corrupção etc. – levam para dentro do consciente humano notícias de um mundo estranho. Lentamente, essas notícias se chocam com os valores pessoais criados ou reconhecidos ao longo da vida e vão reverberando na cabeça de cada um de nós.
Então, no supermercado, a criança lança mão de sua arma mais potente, a birra, para conseguir o brinquedo que viu na prateleira. Chora, faz escândalo, se agacha. Se você não tiver controle sobre aquele choque interno de valores, certamente será vítima de compreensível perda de paciência. (“Neste caso”, diriam alguns, “basta educar os filhos para que não façam birra”. Este é argumento típico de quem jamais teve filhos. Uma criança pode ser educada para não fazer birra, mas isso leva tempo. Até lá, vai fazer, certamente. Não fazer birra é sintoma de algum problema de comportamento infantil porque a birra é normal na criança. E necessária. Mas isso é outro assunto.)

- E você, concorda com a lei das palmadas? – Crédito: Reprodução
Um relacionamento se constrói com o tempo. Os instrumentos de construção são elementos pessoais que ninguém pode entender consideravelmente sem correr riscos de juízo de valor inconsequentes. Ouço Felipe Scolari, técnico de futebol, falar das palmadas que recebeu do pai com o carinho do filho que reconhece a autoridade daquele. Seus olhos deixaram as lágrimas da saudade mostrarem a falta que sente do velho porque o velho me tornou um homem de bem também com o peso da sua mão. Marília Gabriela chegou ao ponto de agradecer à mãe pelas cintadas corretivas nos momentos certos.
Por outro lado, o pai que jamais deu um beliscão no filho e oferece cerveja ele, que encoberta seus pequenos delitos, que contrata advogados para defendê-lo na justiça depois que ter este ateado fogo em mendigos na rua, que suborna policiais para alterarem cenário de atropelamento, que tipo de espaço vai ocupar na lembrança dos filhos daqui a alguns anos?
No exato momento em que escrevo este artigo, a notícia de espancamento de uma criança de três meses por parte do padrasto lateja em minha cabeça; a lembrança do explorado Caso Nardoni também; o da americana que afogou os três filhos em um lago porque seu namorado não gostava deles me mostra que a violência contra crianças não tem fronteiras nem nacionalidade; e outros casos mais. Contudo, também chocam outros tipos de violência contra a criança. Vejam-se os programas semanais de calouros nos quais pais ineptos expõem seus filhos a ridículos em nome de famigerada egolatria. Crianças de cinco, seis, dez, treze anos, com timbres inseguros de vozes ardentes cantam horrivelmente e disputam vagas como se disputassem vidas. Choram as que não vencem; tornam-se pedantes as que “vencem”, – e “vencem” segundo critérios imbecis de adultos medíocres em busca de ibope.
Vejam-se festas de aniversários infantis, nas quais os pais colocam no aparelho de CD arremedos sonoros que a hediondez humana insiste em chamar de música. Menininhas sem a mínima noção do que fazem rebolam seus pequenos quadris numa imitação sórdida de sensualidade horrível. Vejam-se pais que levam seus filhos a tira-colo nos estádios de futebol em finais de campeonatos. Gritam seus palavrões, vociferam contra o time adversário, brandam rojões em direção ao goleiro frangueiro, assoviam para as marias-chuteiras ao lado, corrompem e são corrompidos por cambistas às vistas do filho.
Vejam-se políticos que, em campanha, apanham no colo crianças desconhecidas e posam para fotógrafos contratados para construir suas imagens hipócritas. Acariciam seus rostos e, depois de eleitos, arrocham o salário de seus pais e desrespeitam as leis da nação. Big Brother, Gugu, Meu Pai é Melhor que seu Pai, Pânico, Horário Eleitoral etc. deveriam estar incluídos como objeto da Lei da Palmada. E os Ratinhos que agitam seu cassetete todas as tardes, que mostram mães – e, por extensão, seus filhos – brigando na TV para provar quem é o pai, que diz claramente que assaltante tem de ser morto mesmo, esse tipo de agressão contra a criança deveria estar enquadrada em que tipo de lei?
Uma bela frase tem circulado na internet e nos parece bastante concernente a este tema: “estamos tão preocupados com o tipo de Planeta que vamos deixar para nossos filhos que nos esquecemos de nos preocupar com o tipo de filhos que vamos deixar nosso Planeta”.
Com toda certeza, a Lei da Palma não está preocupada com planeta algum.