COM A IDADE DE NEYMAR3
Escrito por William Paolieri | Postado em Esportes | Tags: futebol brasileiro, idade de Neymar, Neymar e Chelsea, Rádio Eldorado/ESPN, William Paolieri
por William Paolieri *
Especial para o Blog da Comunicação
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Antes de me perguntarem, não, não faz muito tempo. Tenho 23 anos, portanto tive a idade de Neymar há cinco anos. Já estava na faculdade, cursando a graduação em Jornalismo. Lembro-me de entrar na sala com muita timidez, sentar numa das cadeiras colocadas em formato de círculo e começar a me apresentar para turma. Quando revelei minha idade o professor Walter Lima soltou duas observações. A primeira foi quanto a minha aparência: “Nossa, com essa idade e barbudo desse jeito”. Não sou nem nunca fui cuidadoso com a aparência, nunca me liguei muito nisso e a barba lá estava pelo simples motivo de ser muito preguiçoso. Não posso ser considerado um Toni Ramos, mas com uma miniatura dele posso ser comparado, portanto eu faço a barba ela cresce novamente, muito mais ágil e com vontade de ficar. Pelo menos na minha primeira aula de faculdade ela ficou. Já a outra observação que meu caro professor fez para o aluno caçula da turma, no caso eu, foi: “Esse ai não tem nem o cérebro formado por completo”. Claro que fiquei fulo da vida, mas ele era meu professor, o que eu podia fazer? Depois fui saber que essa tal parte nula em meu cérebro era simplesmente a responsável pela minha opinião e por minhas decisões. Realmente não sou especialista para saber se isso está certo ou errado, foi apenas uma curiosidade que ocorreu nos meus 18 anos.
Relembrando meus tempos de “Neymar” dou risadas, fico preocupado e me espanto muitas vezes. Obviamente que uma das minhas atividades preferidas era (e sempre vai ser) o futebol. Mas tive que conciliá-lo com algo inédito até então, as famosas baladas. Confesso que a bebida veio antes. Péssimo exemplo eu sei, mas tive curiosidade. E gostei. Agora, junta isso com essa nova descoberta, lugares onde eu poderia ir mostrando meu RG, sem ter hora para chegar em casa. Simplesmente sensacional. Nesse momento o futebol perdia espaço na minha vida. Foi quando tive a brilhante idéia de juntar ambos. Como? Virando a noite e indo direto pro fut da manhã. Péssima idéia. Se você já passou por isso sabe como é. Imagine quando vem aquele lançamento lindo do seu amigo, cruzando a quadra de society (aqui vale um parênteses, as quadras de futsal são menores, mas você está o tempo inteiro no jogo, cansa mais. Campo você descansa mais, aliás, você só descansa, praticamente toca na bola por uns dois minutos no total. O melhor mesmo para os amadores, como eu, é o society, onde a quadra é do tamanho ideal pra você não estar em jogo o tempo todo, mas também tem que ficar atento para a qualquer momento participar dele. É um misto de cansa, descansa, cansa, descansa). Eu sei, você se perdeu, mas eu não. Estou olhando a bola vindo em minha direção, naquele magnífico cruzamento do meu amigo, cruzando a quadra inteira, lembra? Como se esquecer da pífia participação na jogada? Méritos total para a vodka do dia anterior. Eu só precisava de um pique a mais, a bola passou ao meu lado. Onde está minha força? Minha velocidade ficou onde? Realmente, não dá certo essa mistura balada/bebida/futebol. Não dá liga, mas é gostoso. É saudável viver a idade, é divertido curtir com os amigos.
Se eu aprendi com o erro? Claro, aprendi que quem fará o lançamento da próxima vez serei eu ou pelo menos tentarei. Já que toquei no assunto de balada nem preciso dizer como eram meus finais de semana, né? Final de semana inclusive que teve acréscimo de dois dias, quinta e segunda. Sim, saiamos de quinta a segunda. Aliás, segue uma boa dica para os que moram em São Paulo, a segunda-feira é, com certeza, o melhor dia para curtir uma balada com os amigos. Não tenha dúvidas. Mas, olha que o que fiz de molecagem não está escrito. Vai estar nas próximas linhas.
Já ouviu falar da palavra esquenta? Um ritual de comemorar a balada antes de adentrar ao loval. Uma reunião, que na maioria das vezes, acontece no estacionamento da própria balada. O único motivo é consumir muito antes de entrar no local para, lá dentro, consumir o mínimo possível, pagando assim, o mínimo possível. Não é inteligente? Sim, isso tudo sai da cabeça de adolescentes, como eu fui. Lá dentro nada de muito anormal acontece, ninguém ouve nada, pois o barulho é ensurdecedor, ninguém enxerga nada e todos saem alegres, mais alegres do que entraram.
Até o carro tudo acontece. Primeiro porque ninguém lembra onde raios foi parar o carro, qual dos cinco estacionamentos da região o carro está. Até chegarmos numa conclusão já foi um xixizinho no portão de uma casa, um cochilo abraçado com o poste, uma ligação para aquele amigo que não compareceu, fazendo-o acordar em plena madrugada. Molecagens. Algo normal para a idade.
Calma, não desisti do curso de jornalismo. Continuo “estudando”. Sim, já peguei uma DP, mas a professora não gostava de mim. Mas, se ponha no meu lugar. Com todo esse mundo para você desbravar, com aquele papo que a vida é uma só e os 18 anos de uma pessoa também, assim como os 21, 22, 33, 45. Poxa, não posso tentar ser um garoto normal, que age de acordo com a idade? Se você já errou muito na vida e aprendeu com os erros, parabéns, agora é minha vez. Sim, eu sei que você está já me apontando o caminho certo, mas quero aprender por si só, não quero olhar para trás e me arrepender do que não fiz, dizer que tinha muita coisa para descobrir e não pude, pois estão me aconselhando a tomar outros rumos. Já sei o que é certo e errado, não vou fazer nenhuma besteira, mas quero errar um pouco, quero rir dos erros e aprender. Assim me tornarei um adulto maduro, como você. Você mesmo que está lendo esse texto. Não preciso de conselhos metralhados para me tornar um adulto frustrado.
Voltando ao ano de 2004, aos meus 18 anos. Foi ano de eleição, aliás, meu primeiro ano como eleitor. Passou batido. Confesso, não estudei sobre os candidatos, não me informei muito, um pouco sim, mas não o suficiente para confiar no escolhido. Escolhi por puro impulso de seguir meu pai, assim como fiz na escolha do meu time de futebol. Essa sim, uma escolha importante em minha vida. A da política? Nada mais que um domingo para acordar cedo e passear com meu pai até a escola eleitoral. Eu sei, eu sei, você deve estar me achando um idiota. Onde já se viu um iniciante de jornalista, o futuro da sociedade não se preocupar com política? Onde já se viu? Mas para você é fácil falar, é fácil bater no peito e dizer que com a minha idade, aliás, com 18 anos, com a idade do Neymar, você era totalmente politizado, sabia de como tal partido agia e como o outro se manifestava. Claro, você vivia numa ditadura. Não era fácil combater, mas era simples escolher um lado, era algo óbvio demais. Se tivesse nascido na sua época seria seu companheiro de luta contra a ditadura. Mas e hoje? Preciso estudar muito sobre os partidos? Preciso ser uma pessoa mais ligada na política para saber que tudo gira em torno de interesses pessoais? Contra quem vou lutar? Você se espelhou em lutar contra a ditadura, talvez os líderes políticos atuais estivessem ao seu lado nessas manifestações contra aquele regime, mas e hoje? Vou lutar contra o partido X, Y, vou bater no peito e dizer que confio em fulano e votei nele, para depois de cinco meses no cargo eu receber uma notícia de que ele desviou dinheiro, para que farei isso? Eu quero mais é jogar meu vídeo game, afinal tenho 18 anos, tenho muito que aproveitar. Um dia sei que serei mais presente na política, mas por enquanto quero aproveitar minha idade, sem ter com o que me preocupar.
Na verdade eu menti para você leitor. Me preocupo muito sim. Quero mais é saber quando que vou conseguir um dinheiro para ajudar meus pais. Não vejo a hora de comprar uma casa na praia, assim eles aproveitarão melhor os finais de semana. E carro? Meu sonho é uma Ferrari, um porsche ou quem sabe uma lamborghini. Não que eu saiba diferenciá-los quando passam na rua. Nem mesmo se estiverem ao meu lado ou até comigo dirigindo, mas quem não sonha em ter esses carros? Talvez não pelos carros, mas pelo que representam. Tudo bem, você vai me dizer que andar com um carro desses em São Paulo é besteira, mas se eu tivesse 18 anos e grana para isso, compraria. Sendo besteira ou não, talvez um pouco mais velho não comprasse mesmo, mas com a idade do Neymar teria feito sim senhor.
Mesmo na faculdade meu antigo sonho de se tornar jogador de futebol não cessou. Era com muita tristeza que eu via o tempo passando, não que eu estivesse tentando me tornar um craque da bola, mas sonhava que algum dia cairia do céu uma oportunidade. Para quem sempre sonhou meu saldo é bem abaixo do esperado já que fui apenas a uma peneira em toda minha existência. E cheguei atrasado. Para ser mais exato uma hora atrasado. Nem preciso dizer que não deixaram sequer pisar no terrão (grama naquele local era luxo). O sonho acabou. Quando? Não me lembro. Pelo menos abracei a carreira de jornalista esportivo. Como viram o amor pelo futebol não acabou e, certamente, não cessará.
É por isso que peço pra deixarem Neymar livre. Ele é só um menino com sonhos bem parecidos com os dos que já passaram por essa idade. Como eu. Como você. Criticá-lo por não se interessar por política, por querer sair do Santos, por deixar a Pátria e até mesmo pelas molecagens que fez, faz e irá fazer é algo que beira o egoísmo. Você viveu essa idade, teve seus erros, agora o bastão está nas mãos dele. É a vez dele viver os próprios erros. Para terminar gostaria de lembrar que não estou defendendo Neymar, estou me defendendo das minhas próprias acusações, pois antes eu era igual a ele e hoje sou igual a você que me critica pela adolescência que tive. Normal, é da idade.
* William Paolieri é jornalista da Rádio Eldorado/ESPN e colaborador do Blog da Comunicação.





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