
Tradição da cidade, as barracas de praia fornecem lazer e trabalho a milhares de Soteropolitanos.
Por Henrique Oliveira
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Quem conhece Salvador sabe que um dos maiores traços culturais e econômicos da cidade está em suas praias: as famosas barracas da orla da cidade simplesmente são um ponto de identificação e de sustento de muitos soteropolitanos. É lá que muita gente se encontra, ouve música, se diverte e tira boa parte da sua fonte de renda… Em outras palavras é na orla que muitos habitantes da cidade criaram sua vida cultural e seus momentos de lazer e trabalho. E muito dessa “cultura”, sem sombra de dúvidas, está ligada às dezenas de bares que se localizam nas areias das praias. “Desde que me entendo como gente freqüento barraca de praia, moro perto daqui (da praia de Piatã) e tem gente que só encontro nesses estabelecimentos, sem falar que os barraqueiros ajudam a deixar as praias mais limpas” diz Daniel Serva, cientista, ao defender a tradição á qual se acostumou.
O problema de tudo é que, contrariando a visão do Daniel Serva, a reboque dessa “tradição” da cidade, o que encontramos todos os fins de tarde na orla da capital baiana é uma verdadeira onda de poluição. Ao final dos dias, a maioria das praias de Salvador está completamente suja. Copos plásticos, restos de comida, fezes, recipientes vazios, esgoto de banheiro e toda uma gama de detritos emporcalham as nossas praias. E tudo isso nos faz questionar a relevância real das famosas “barraquinhas” – é assim que, popularmente, os bares de praia são conhecidos na capital baiana.
O outro ponto que endossa a polêmica é estético: muitos defendem que as barracas de praia de Salvador deixam a cidade e sua orla mais “feias” (nunca é demais lembrar que qualquer critério de beleza é enviesado, subjetivo). Defendem, então, uma praia mais “carioca”, com areia livre e quiosques mais afastados. Essa é, inclusive, a posição do prefeito da cidade, João Henrique (PMDB), que, por meio do seu Twitter, recentemente afirmou acreditar que a melhor proposta para Salvador seja “colocar as barracas nos calçadões”.
E parece mesmo que o poder público, em suas outras esferas, aposta nesta ótica do prefeito. Afinal, o famoso e apoiado “Projeto Orla” da prefeitura, desde 2006, prevê uma ação de revitalização de quase 540 Barracas. Foi justamente deste projeto que partiu a polêmica: os barraqueiros, inconformados por terem que deixar seus locais de trabalho, e receosos com resultado final da intervenção do governo, conseguiram, por meio de ação judicial, uma paralisação das obras ainda em 2006. Essa paralisação se arrastou por uma sequência enorme de recursos e decisões paliativas, até culminar na reforma incompleta de apenas algumas poucas barracas, que foram refeitas em alvenaria e com telhas de madeira.
Anos mais tarde, precisamente no mês de março deste ano, foi divulgada a decisão do Juiz Federal Carlos D’Ávila Teixeira que autorizava a demolição (veja a foto abaixo) de 137 barracas em diferentes praias de Salvador. Atendendo a uma solicitação da prefeitura, o juiz aceitou o argumento de que quase todos (95%) os estabelecimentos continham irregularidades nas instalações sanitárias, além de não atenderem a outras regras estabelecidas pela justiça.

Início da demolição das barracas provoca muita repercussão popular. Imagem: www.atarde.com.br
Mais uma vez o prefeito falou sobre a questão via Twitter: “acreditamos no diálogo. Ocorre que cumprimos um prazo determinado pela Justiça para a demolição das barracas. Diante disto, disponibilizamos carretas para transportar os pertences e equipamentos dos barraqueiros”.
Bem, os argumentos que embasam a retirada das barracas parecem, então, muito justos. Afinal, não podemos conceber que o meio ambiente seja agredido tão fortemente pelas ações que nós, seres humanos, não cansamos de repetir. Porém, outro lado da história deve ser lembrado e deixado aqui como reflexão aos nossos leitores: será mesmo que as pessoas retiradas dessas barracas de praia terão outra forma de renda? Será que serão compensados? Devemos mesmo privilegiar um aspecto da situação em detrimento de suas causas sociais?
È preciso lembrar que o ser humano, ao viver num contexto complexo, necessita de diversas “demandas”. Comer, trabalhar, se divertir, ter um bom planeta para morar… Tudo isso, acreditem, está, de uma forma ou de outra, interligado. Por isso, não podemos aceitar uma ação que seja benéfica para apenas um lado da história. Afinal, somos seres eminentemente sociais…
