por Henrique Torres
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Quando escolho um filme, geralmente seleciono-o devido a um único fator; o nome do diretor. Escolhê-lo pelo nome de um diretor que conheço, e que já tive oportunidade de observar em outros trabalhos, é de certa maneira uma forma de garantir que não vou perder meu tempo com um péssimo filme. Isso faz com que quase sempre, eu opte por filmes antigos, de diretores consagrados pelo tempo. Poucos são os diretores ainda vivos que merecem ter seus filmes assistidos. Um destes raros casos é Darren Aronofsky.
Aronofsky é um dos poucos da atualidade que consegue manter um bom nível em seus filmes. Estes, quase nunca caem no lugar comum do cinema “hollywoodiano”. Eles mantêm uma distância considerável disto que podemos chamar de cinema comercial e de entretenimento que Hollywood produz em larga escala.
Em seus filmes, Aronofsky sempre traça retratos de situações em que o ser humano é levado ao limite por excessos e obsessões. Mencionarei aqui apenas dois casos retirados da filmografia pouco extensa do diretor. O bastante humano O Lutador, e o denso e impactante Réquiem para um Sonho.
Em O Lutador Aronofsky nos coloca diante de uma situação que é no mínimo muito humana. O filme retrata a vida do lutador de luta livre Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke) que havia sido excepcional no passado, mas que agora, vinte anos depois, vive uma vida marginal. Fora dos grandes circuitos de luta livre, ele agora ganha seu sustento entre pequenos combates de quinta categoria, feitos para meia dúzia de adoradores esquisitos, e “bicos” em um supermercado. A situação de Randy se agrava quando ele sofre um infarto e é impedido de lutar.

E aí é que ele tem que enfrentar o verdadeiro desafio de sua vida. Viver. Não mais viver exclusivamente de suas lutas e de seus fãs como antigamente. Mas viver a vida simples, cotidiana e corriqueira. E o desafio não é pequeno como parece. Randy é incapaz de qualquer relação social estável, além de ser completamente desprezado e renegado pela sua filha. Para ele, mesmo o simples atendimento dos clientes do supermercado é um desafio a ser equiparado a uma de suas lutas. O Lutador é um retrato do abandono e da solidão de um homem que um dia já foi grandioso. Ele mostra como o sucesso pode ser passageiro e destruidor quando acaba. Aronofsky criou aqui um retrato bastante humano do declínio de uma carreira e de suas conseqüências na vida de um homem. Algo que é bastante comum observarmos num país como o nosso, recheado de grandes esportistas que quase sempre caem no esquecimento e no abandono.
Em Réquiem para um Sonho, quatro personagens dividem nossa atenção. Harry (Jared Leto), seu amigo Tyrone (Marlon Wayans), sua namorada Marion (Jennifer Connelly) e sua mãe Sara (Ellen Burstyn) são quatro pessoas comuns, com suas dificuldades na vida e seus sonhos por realizar. O filme retrata a busca deles pela realização de suas buscas e anseios. Busca que é realizada por um caminho destruidor; as drogas. Os três primeiros são amigos que se envolvem cegamente no mundo das drogas. Compram, consomem e revendem para tentar ganhar dinheiro e conseguir levar uma vida melhor. Sara, a mãe de Harry, é uma mulher solitária que não tem mais a companhia do filho e que é viciada em televisão. Quando recebe uma suposta ligação para participar de um programa de TV, ela procura de todas as formas melhorar sua aparência. E isto a leva a tomar comprimidos de Anfetamina para emagrecer. Quando os comprimidos passam a perder o efeito, ela começa a tomá-los incontrolavelmente para conseguir reavivar a sensação que sentia antes, e isso a leva a uma situação completamente destruidora.
Este roteiro é o que vez por outra vemos passando nas novelas das nove. Com uma diferença fundamental. Como o próprio nome do filme já diz, não devemos esperar um final feliz. O que o filme busca retratar é exatamente o efeito devastador que o excesso no uso de drogas pode causar. Desde o começo otimista até o final impactante, Réquiem para um Sonho traça uma trajetória de degeneração física e mental. Ele expõe o fundo do poço, o limite do ser humano diante das drogas. Ele é exatamente o que o título pretende, isto é, o Réquiem que é tocado para os sonhos, a música ou prece pela qual se homenageiam os mortos, o repouso eterno dos sonhos destruídos.

Apesar de aparentar possuir um discurso moralizante, o filme não traz este tipo de mensagem. Ele é apenas factual e realista. Não mostra se é certo ou errado. Mostra apenas que o potencial destrutivo é enorme quando existem excessos. Aliás, este é um dos lugares comuns da filmografia de Aronofsky. Os excessos e obsessões são sempre destruidores. Seja por um grupo de jovens que abusa das drogas, por uma bailarina obcecada com a perfeição, por um lutador que viveu sua vida apenas de suas lutas, ou um matemático que obstinadamente tenta encontrar o número que explique todas as coisas do mundo. Através de seus personagens, Aronofsky encontra sempre um modo de nos mostrar nossos limites, e os caminhos que alguns traçam para a destruição. Por meio deles, Aronofsky sempre encontra um modo de falar sobre nós mesmos.